Webinar do NCD Academy discutiu desafios emergentes da medicina com palestrantes internacionais

Ambos do Baylor College of Medicine, Christie Ballantyne falou sobre medicina de precisão e Salim Virani sobre digital health; a cardiologista e educadora Marcia Mackdisse abordou value based healthcare


Os desafios emergentes da moderna medicina foram debatidos na quinta e última edição dos webinares de lançamento da NCD Academy no Brasil, uma iniciativa global voltada para a melhoria da formação de médicos e profissionais de saúde para o enfrentamento das doenças crônico-degenerativas, criado pelo American College of Cardiology (ACC), com o apoio de várias entidades internacionais e que, em nosso meio, tem chancela do Capítulo Brasil do ACC e da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), além do patrocínio da Viatris. Em edições anteriores, foram discutidos os fatores de risco e as principais doenças cardiovasculares com expoentes nacionais da área.


O encontro virtual gratuito aconteceu na noite de 26 de outubro e foi aberto por Marcus Bolívar Malachias, ex-presidente da SBC, atual governador do ACC Capítulo Brasil, coordenador da NCD Academy Brasil e idealizador da série de webinares complementares gratuitos que vêm sendo realizados desde agosto deste ano. Ele apresentou Antônio Carlos Palandri Chagas, presidente do Departamento de Aterosclerose da SBC, e David Brasil, diretor de Pesquisa da SBC, que anunciaram os convidados e participaram do debate.


O primeiro palestrante foi Christie Ballantyne, MD, uma das grandes referências mudiais em aterosclerose e chefe da cardiologia do Baylor College of Medicine, no Texas, Estados Unidos. Ele falou sobre medicina de precisão para prevenção de doenças cardiovasculares.


Ballantyne lembrou o quanto a tecnologia e as ações preventivas avançaram desde que atuou como estagiário, em 1983. “Mas ainda há muito o que fazer, não sabemos identificar corretamente aqueles que têm risco. Incentivamos a mudança de hábitos nas pessoas, mas precisamos de dados mais precisos para tomar as decisões corretas”, disse.


Segundo ele, pensamos na prevenção do AVC e doenças cardiovasculares, no entanto, não estamos considerando a prevenção de insuficiência cardíaca, que pode ser discriminada precocemente com biomarcadores como BNP, troponina, PCR, exames de imagem e marcadores genéticos.


Ballantyne mostrou a situação atual e para onde caminhamos para personalizar a avaliação de risco. Estão em pleno desenvolvimento pesquisas com novas tecnologias denominadas “omics”, que tentam identificar padrões de risco envolvendo até 5.000 proteínas e metabólitos.


Sobre genética, apontou o baixo custo de testes para FH e, para o futuro, prevê o barateamento do sequenciamento de exoma e a continuidade das pesquisas para aplicação clínica. Na área de imaginologia, citou o valor do escore de cálcio coronário (CAC), CAC associado a TC de baixa radiação, ultrassom 3D para carótidas e femorais e ressonância magnética.


“Não conseguimos fazer previsões tão rápidas, mas é possível salvar mais pessoas com testes genéticos cardiovasculares. Fazendo uma analogia com situações de incêndio, podemos inserir alarmes e conduzir as pessoas para a saída ao detectar fumaça. Quer dizer, podemos ajudar no controle de diabetes, obesidade e doenças cardíacas a partir da infância e da adolescência, ajudando toda a família. Quanto mais cedo fizermos isso, além de uma vida saudável, essas pessoas também gastarão menos com hospital no futuro”, explicou.


Ao identificar os genes para determinadas doenças, o médico pode incentivar a mudança de hábitos no paciente, educando-o para uma vida mais saudável. Além disso, a análise genética possibilita maior precisão no tratamento e, consequentemente, melhores resultados.


Na sequência, David Brasil questionou Ballantyne sobre o futuro da educação médica em relação à genética e bioquímica. “Precisamos ensinar nossos alunos sobre a melhor terapia para cada paciente. Isso nos permite ajudar mais pessoas a passar por esses desafios. Quando temos muitos dados, devemos considerar quais são os mais importantes para comunicar aos médicos que estão começando. Os veteranos também precisam se atualizar e se aprofundar nessas questões.”


Outro desafio, também questionado por David, é sobre o valor dos testes genéticos e dos medicamentos, que dificultam o alcance por grande parte da população. “Isso é frustrante. Espero que encontremos o caminho do meio em relação aos custos, para aumentar a acessibilidade. De certa forma, os valores já melhoraram ao longo do tempo e isso nos deixa felizes”, complementou Ballantyne.


Medicina baseada em valor

Marcia Mackdisse, cardiologista, educadora, mentora e consultora em Value Based Healthcare (VBHC) palestrou logo depois. Ela citou como elementos importantes para transformações dos cuidados em saúde o trabalho em conjunto, de forma holística, e o foco na prevenção. “Precisamos começar a fazer parcerias com a comunidade e coletar dados que realmente façam a diferença na vida do paciente. Não podemos transformar o que não podemos medir”, destacou.


E por que é necessário fazer uma transformação na medicina e na saúde? De acordo com Marcia, aumentamos o investimento na área, mas o cuidado não tem melhorado, em todo o mundo. “Precisamos gastar conscientemente e entender a complexidade da relação entre resultado e custo.”


Esse problema acontece, entre outros fatores, devido à fragmentação do cuidado. “Temos de pensar de forma sistemática, com tratamentos conforme o diagnóstico e trabalhando a prevenção. Há dificuldades em medir resultados em toda a área de saúde. Precisamos entender o que é importante resolver e parar de gastar tanto recurso e energia.”


Segundo ela, os incentivos fiscais estão errados e não se relacionam com os resultados para os pacientes. Marcia explicou que a atenção baseada em valor é uma estratégia para transformar o sistema de saúde, cujo princípio fundamental é maximizar o valor para os pacientes com o menor custo. “Precisamos adotar um modelo multidisciplinar que traga valor e diferentes aprendizagens ao longo do tempo, através de novas evidências e tecnologias, sempre de forma holística. Precisamos mudar a logística do sistema.”


Ela citou o ICHOM – International Consortium for Health Outcomes Measurement, que desenvolve um novo paradigma focado nos resultados que mais interessam para os pacientes, identificados através de questionários. “É fácil e barato obter essas respostas para saber exatamente o que é mais importante para as pessoas e direcionar o tratamento.”


Marcia apresentou, também, uma pesquisa com países da América da Latina mostrando que 54% utilizam o modelo de pagamento fee-for-service, 37% usam fee-for-service mais outros modelos e 9% utilizam modelos globais. “O percentual de fee-for-service ainda é alto, mas o uso de modelos diferentes tem crescido, com tendência para o modelo híbrido, , incorporando o “fee-for-performance” que ganha incentivos cada vez maiores.”


Pegando gancho na fala de Ballantyne, a mentora destacou a importância de educar os profissionais sobre essa transformação. Uma pesquisa realizada com residentes mostrou que apenas 14% têm familiaridade com os conceitos de VBHC. “O nível de nossa consciência em relação ao que o paciente precisa ainda é muito baixo. Temos de ensinar alunos e residentes desde o início. O novo modelo de pagamento vai reduzir custos e transformar digitalmente os hospitais, trazendo mais segurança para os pacientes. A medicina baseada em valor vai integrar diferentes profissionais de saúde, focando no melhor resultado, com custo adequado e sustentabilidade”, frisou Marcia.


Digital Health

O último palestrante foi Salim Virani, MD, PhD, professor e pesquisador nas Seções de Cardiologia e Pesquisa Cardiovascular do Baylor College of Medicine. Ele explicou o que envolve “digital health”, como impressão 3D, robótica, telemedicina, dispositivos vestíveis e realidade virtual, entre outros; “big data”, citando inteligência artificial e “machine learning”; e “precision health”, envolvendo genética e microbioma.


Um dos destaques comentados foi a importância do “digital health” para a área de diagnóstico, já que através de dispositivos móveis é possível coletar dados que ajudam a identificar a condição dos pacientes e propor o melhor tratamento.

Questionado sobre os resultados do uso do smartphone para obter dados dos usuários, Virani respondeu que depende do objetivo, do que se pretende medir em relação ao paciente. Se for um ensaio simples, tem bons resultados, mas se for mais complexo, não.”


De fato, quando se fala em tecnologia, há desafios diferentes para cada uma das partes envolvidas. Por exemplo, com relação aos pacientes, falta acessibilidade a tecnologias de saúde digital e, com a exposição passiva, é preciso lidar com o aumento do volume de dados em seus dispositivos. Também há problemas de segurança e privacidade e falta de integração com as necessidades e os valores dos usuários.


Já os fornecedores veem redução na produtividade associada a novas tecnologias, enquanto os desenvolvedores de soluções apontam a baixa barreira financeira para entrar no setor de saúde, mas o alto custo para demonstrar eficácia, segurança e rentabilidade. Por sua vez, as agências reguladoras se deparam com o rápido surgimento de novas tecnologias que buscam aprovação.


Para todos os atores do sistema de saúde podem ser apontadas desvantagens, mas o fato é que o uso das tecnologias é uma realidade. “Já utilizamos rastreadores de atividade, “smartwatches”, sensores vestíveis e pílulas digitais, que podem identificar o que acontece dentro de cada órgão do corpo. Essas ferramentas serão cada vez mais usadas, monitorando frequência cardíaca e respiratória, por exemplo, permitindo a comunicação e a integração de dados entre familiares e equipes médicas através da internet.”


Virani ressaltou que a saúde digital vem crescendo exponencialmente na última década. Vide a pandemia de Covid-19, que levou a uma expansão significativa do domínio da telemedicina da saúde digital. Segundo ele, várias inovações ainda estão no horizonte, mas também há grandes desafios. A questão que permanece é se esses modelos melhoram a eficiência do sistema de cuidados de saúde sem comprometer sua eficácia.


Já o “big data” atravessa vários domínios da inovação nos cuidados de saúde. “Continua em andamento a melhor forma de usar big data para engajar os pacientes e criar decisões clínicas inteligentes para os médicos”, apontou.


Os cursos da NCD Academy Brasil, podem ser acessados gratuitamente pelo link: http://cardiol.br/ncd-academy/. O módulo de “Doenças Cardiovasculares e AVC” está disponível em português. Muitos outros módulos estão disponíveis em inglês, espanhol e outras línguas. Ao concluir cada módulo, os profissionais recebem um certificado emitido pelo ACC.


Mais informações sobre o evento, clique aqui.

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