Webinar discutiu a importância de ações preventivas no combate às doenças cardiovasculares

Os participantes mostraram que a abordagem correta e necessária é focar em todos os indivíduos, ao longo da vida, fazendo grandes modificações em múltiplos fatores de risco

Em comemoração ao Dia Mundial do Coração, a Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) e o Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde (Conasems) realizaram mais um webinar do projeto Cuidando do Coração, voltado à promoção da educação de equipes de saúde dedicadas à atenção primária de municípios brasileiros nos temas relativos à prevenção das doenças cardiovasculares.

Moderado por José Francisco Kerr Saraiva, diretor de Promoção de Saúde Cardiovascular da SBC, o webinar “Saúde do Coração” aconteceu no dia 29 de setembro, com transmissão gratuita pelo canal do YouTube do Conasems.

“Escolhemos esta data especial para discutir com mais de cinco mil municípios brasileiros a questão da doença cardiovascular. A pandemia de coronavírus vai embora com a vacina, mas a pandemia da doença cardiovascular continua matando 400 mil brasileiros todos os anos”, ressaltou Saraiva.

Na sequência, Álvaro Avezum, diretor da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo (Socesp) e do Centro Internacional de Pesquisa do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, expôs um panorama da saúde do coração no Brasil e no mundo. “Precisamos transformar a evidência científica disponível, que é o conhecimento confirmado, em ações implementáveis para que a população receba os benefícios”, disse.

Segundo o estudo Interheart, que tem a participação do Brasil e é considerada a melhor evidência científica, 90% do risco de infarto agudo do miocárdio no país é passível de prevenção por meio da identificação dos fatores de risco. Os de maior impacto nacional são colesterol alterado, obesidade abdominal, hipertensão arterial, estresse, tabagismo, sedentarismo e diabetes.

No caso de acidente vascular cerebral, dez fatores de risco são responsáveis por 92% dos casos no mundo: hipertensão arterial, tabagismo, obesidade abdominal, diabetes, álcool, estresse e depressão, fatores de risco cardíacos e colesterol alterado. No Brasil, a estimativa é que haja meio milhão de AVCs por ano.

Outro estudo mostrado por Avezum foi o PURE, que acompanhou 300 mil indivíduos de vários países, incluindo o Brasil, por 15 anos. “Com a migração da zona rural para a urbana, tornamo-nos mais sedentários, passamos a ter uma alimentação mais calórica e ficamos sob forte carga estressora e depressiva. Isso gera uma resposta metabólica do organismo, que é o fator de risco. A partir daí, é questão de tempo para eclodir uma doença cardiovascular”.

Outros dados revelam que a ingestão de frutas e legumes diariamente reduz em aproximadamente 20% a mortalidade, e o consumo de gordura animal diminui essa possibilidade em 23%. Já carboidratos em excesso aumentam em 28% a mortalidade. Ganho de força muscular e atividade física aeróbica aumentam a sobrevida. “Com relação ao consumo de sal e potássio, a virtude está no meio: usar com moderação”, disse o médico.

O estudo PURE também identificou que apesar do risco cardiovascular ser maior em países ricos, as taxas de infarto, AVC e insuficiência cardíaca são maiores nos países mais pobres. “Isso sugere fratura no sistema de saúde, é o paradoxo do risco”, apontou.

Sobre o uso de medicamentos, a pesquisa mostrou que 20% dos brasileiros, após infarto, não usaram nenhum medicamento. E 30% após AVC também não. No Brasil, 42% das causas de morte são por doenças cardiovasculares, e 30%, por câncer.

Avezum encerrou mostrando em quais fatores as secretarias municipais deveriam focar para reduzir infarto, AVC e insuficiência cardíaca. O mais importante é hipertensão arterial, seguido de colesterol alterado, poluição, tabagismo, alimentação não saudável, escolaridade baixa, obesidade abdominal, diabetes, força muscular rebaixada, sedentarismo, depressão e álcool. “A abordagem correta e necessária é trabalharmos a prevenção das doenças cardiovasculares focando em todos os indivíduos, ao longo da vida, fazendo grandes modificações em múltiplos fatores de risco”, finalizou.

Prevenção é fundamental

Continuando o webinar, Carla Janice Baister Lantieri, coordenadora do Programa SBC vai à Escola e do Comitê da Criança e do Adolescente da SBC, iniciou sua apresentação com um dado assustador: segundo estimativa da Organização Mundial da Saúde (OMS), o Brasil será o país com maior número de casos de morte por doenças cardiovasculares em 2040.

Ela citou, na sequência, dados do Colégio Americano de Cardiologia e da Associação Americana do Coração, apontando que a maneira mais importante de prevenir doenças cardiovasculares é adotar hábitos saudáveis para o coração e praticá-los ao longo da vida. “Muitas vezes falhamos na implementação de estratégias eficazes para o controle dos fatores de risco”, avaliou.

De acordo com Carla, o quanto antes trabalhar a prevenção, é melhor, tendo em vista que a aterosclerose, que é a evolução das doenças cardiovasculares, chega silenciosa ainda na primeira infância, causando alta mortalidade, demandando intervenção com muita precocidade. “Quando falamos em prevenção, falamos de educação, da criação de um estilo de vida do indivíduo”.

É com esse propósito que a SBC vem investindo na prevenção primordial da aterosclerose, unindo forças com escolas, sociedades de especialistas, secretarias da Educação, Saúde, Esporte, Cultura e Universidades.

Um dos programas é o SBC vai à Escola, criado em 2007 e coordenado pelo Comitê da Criança e do Adolescente da Diretoria de Promoção da Saúde Cardiovascular da SBC. Seu objetivo é atuar na conscientização dos alunos em idade escolar na promoção de saúde e na prevenção de doenças cardiovasculares por meio do engajamento da sociedade, governo, profissionais da área de saúde e comunidade escolar.

Em 2019, o programa expandiu-se para Goiás e para 210 escolas do Estado de São Paulo, atingindo mais de 63.000 alunos, além de ter sido apresentado para instituições internacionais. Já em 2021, chegou à Roraima e à Santa Catarina.

“Nosso foco ao falar com crianças e adolescentes é promover a saúde como um todo: alimentação saudável, atividade física regular, bem-estar físico, mental e espiritual. Ter pensamento positivo e atitudes nobres colaboram para uma vida saudável”, destacou Carla.

Dentro do programa, são utilizados como ferramenta o “Guia Alimentar para a População Brasileira” e o material da Organização Mundial sobre como trabalhar a atividade física com crianças e adolescentes.

“Queremos e podemos chegar a todos os estados brasileiros. A ciência diz que há a necessidade de fazermos essa prevenção e temos essa grande união entre saúde e educação, pois saúde se constrói com educação”, frisou Carla.

O webinar na íntegra pode ser assistido AQUI.

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