Transplante de coração de porco em homem é um marco na medicina

Fernando Bacal, ex-diretor científico da SBC, diz que obstáculos foram vencidos com modificação genética para sucesso da cirurgia. Caso aconteceu nos EUA e paciente se recupera bem


Um caso revolucionário na medicina mundial acaba de ser realizado nos EUA. Um homem de 57 anos está se recuperando bem após receber um coração de porco geneticamente modificado em uma cirurgia de transplante inédita. David Bennett, tinha uma doença cardíaca terminal, e o órgão do animal era “a única opção disponível atualmente”, de acordo com um comunicado enviado à imprensa pela Escola de Medicina da Universidade de Maryland no último dia 10/1. O paciente foi considerado inelegível para um transplante de coração convencional ou uma bomba de coração artificial após revisões de seus registros médicos.

Dr. Fernando Bacal

“O transplante por si só foi uma revolução comparável com o homem chegar na lua, na década de 1960 e esse transplante agora é também um grande marco, porque o xenotransplante, que é o transplante de um animal para o humano, vem sendo estudado desde a década de 1980, e inúmeros obstáculos foram vencidos para que obtivéssemos sucesso agora”, fala o ex-diretor científico da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), Fernando Bacal.


A FDA, agência reguladora americana, órgão similar à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), concedeu autorização de emergência para a cirurgia em 31 de dezembro de 2021.


Três genes que são responsáveis ​​pela rejeição de órgãos de porco pelo sistema imunológico humano foram removidos e um gene foi retirado para evitar o crescimento excessivo de tecido cardíaco de porco. Seis genes humanos responsáveis ​​pela aceitação imune foram inseridos.


“Rejeições e infecções podem ocorrer em qualquer transplante. Com essa modificação genética que fizeram foram retiradas algumas proteínas que seriam um risco que poderiam levar a rejeição e foram adicionadas outras que protegem contra a rejeição, então teve adição e deleção de proteínas e isso foi o fantástico dessa empresa de biotecnologia de Michigan que conseguiu fazer esses porcos modificados geneticamente que puderam ser transplantados nesse paciente que não tinha outra opção, que pelos relatos não era elegível para um transplante normal e nem para um coração artificial, e o que chama muita atenção é a rápida aprovação para um cirurgia desse grau de complexidade e ainda experimental”, destaca Bacal.


Segundo o representante da SBC, esta cirurgia pode abrir caminhos para que outros tipos de transplantes envolvendo órgãos que não sejam de seres humanos aconteçam nos próximos anos.


“De acordo com a Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO), nós precisaríamos estar fazendo por ano 1.200 transplantes cardíacos e fazemos 400, ou seja, 800 pacientes ou não são encaminhados para o centro de cirurgia ou acabam morrendo esperando. Essa tecnologia dando certo nos permitiria fazer os transplantes de um paciente eletivo e não teríamos os problemas para a escassez de órgãos, isso seria aplicado a todos os transplantes, de rim, de pulmão, de fígado, quer dizer para transplantes de órgão sólidos seria aplicável também”, enfatiza Bacal.


Para o cardiologista, nos próximos meses se poderá ter uma noção maior da efetividade do transplante acompanhando o paciente, verificando a não rejeição ou complicações, o que significará que se venceu a fase aguda do tratamento.


“Ainda haverá as outras etapas, mas é um avanço que abre uma expectativa muito grande, para que a gente mude a história e para que os pacientes possam ser transplantados com mais rapidez, mais agilidade, consequentemente fazendo com que esse sofrimento de viver com uma doença incapacitante de todos os órgãos tenham um grande alento”, finaliza Bacal.

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