• Júlio Matos

SBC reitera que benefícios e segurança das vacinas mRNA são superiores aos riscos da miocardite

Webinar realizado no final de julho abordou o panorama das vacinas de RNA mensageiro no mundo e a relação delas com miocardites


No fim de junho, o Centro para Controle de Doenças dos Estados Unidos (CDC, na sigla em inglês) divulgou o recebimento de centenas de relatos de miocardites e pericardites após a vacinação e para debater e esclarecer sobre o assunto a Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), promoveu o webinar “Possíveis efeitos adversos das vacinas de mRNA — Foco em miocardites”.


A entidade propôs discutir os dados americanos, que reportaram 850 casos de miocardites após doses de imunizantes de mRNA, especialmente em pacientes mais jovens. Esse número equivalia, então, a uma média de 4 a 5 casos por cada 1 milhão de vacinados, ou seja, uma condição rara.


As miocardites descritas, na maioria das vezes, têm uma característica benigna de resolução rápida com o tratamento adequado. Muitos dos pacientes não têm sintomas, ou podem ter uma dor torácica, palpitação, falta de ar. Mas a tendência é que seja autolimitada. Após as vacinas, essas miocardites têm se resolvido ou espontaneamente, ou com pouco cuidado, em poucas semanas.


O diretor da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), Renato Kfouri, lembrou que nem toda infecção pelo SARS-CoV-2 evolui para Covid-19. Algumas são assintomáticas e estima-se que para cada caso confirmado, exista de 5 a 6 outros infectados proporcionalmente. Segundo ele, a maioria das vacinas conseguem prevenir a doença clínica, ou seja, manifestada, no entanto, os aspectos que os imunizantes têm na prevenção nem sempre são os mesmos conta a infecção.


“Vacinas genéticas, de RNA mensageiro — são aquelas em que o anticorpo é produzido pelo indivíduo que recebe é vacina. A pessoa vacinada recebe a instrução para que as células do próprio organismo produzam o anticorpo. São vacinas de rápida produção, desenvolvidas com RNA mensageiro sintético, que pode ser produzido em excesso, não se integram ao genoma hospedeiro, sendo seguras, porque não contém grandes componentes alergênicos. No entanto, entre as desvantagens, apresentam alto custo e necessidade de ultracongelamento. Temos disponíveis, nessa categoria, as vacinas da Pfizer/Biontech, da Moderna e outra alemã que deverá ser disponibilizada em breve”, ressaltou Kfouri.


Mais de 4 bilhões de doses de vacinas contra a Covid-19 já foram distribuídas no mundo, porém de maneira desigual: 75% das doses foram destinadas a somente 10% dos países. Desse total, cerca de um quarto foi de vacinas da Pfizer/Biontech, por isso os estudos em torno dos efeitos adversos giram em torno da aplicação desse imunizante. A vacina da Moderna corresponde a 10% das vacinas ao redor do mundo.


“A vacina da Pfizer/Biontech mostrou um espetacular desempenho nos estudos de eficácia, independentemente da idade ou estagio sorológico dos indivíduos. Para qualquer desfecho, o desempenho girou em torno de 95%”, mencionou Kfouri.


A gerente de Farmacovigilância da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), Helaine Carneiro Capucho, participou do webinar e reiterou das vacinas da Pfizer e da Moderna, apenas a primeira está registrada pela agência reguladora brasileira para uso no país, por meio do Programa Nacional de Imunizações (PNI) do Ministério da Saúde.


Para a Anvisa, a situação de possíveis efeitos adversos indica necessidade de uma maior sensibilização por parte dos serviços e profissionais de saúde para o adequado diagnóstico, tratamento e notificação de casos. A identificação precoce de sintomas e a adoção de tratamento apropriado são aspectos fundamentais para uma melhor evolução clínica de pacientes com quadro de miocardite e pericardite.


A Anvisa também esclarece que o risco de ocorrência desses eventos adversos é baixo, mas recomenda aos profissionais de saúde que fiquem atentos e perguntem às pessoas que apresentarem sintomas se elas foram vacinadas, especialmente com a vacina da Pfizer, e que os benefícios da vacinação superam os riscos.


“Não foi identificado reinfecção pela Covid-19, nem manutenção da atividade da doença, ou ativação de doença autoimune, ou identificado reação tóxica a medicamentos, ou substâncias químicas. A maioria dos estudos e relatos de caso não explicam ou sugerem o mecanismo da miocardite pós-vacina e não há estudos de avaliação prognóstica dos pacientes com miocardite”, disse o chefe do Centro de Insuficiência Cardíaca do Hospital Pró Cardíaco e fellow da Sociedade Europeia de Insuficiência Cardíaca, Marcelo Westerlund Montera.


Ele detalhou que o perfil clínico mais frequente para suspeita de miocardite pós-vacina mRNA contra Covid-19 equivale a:

  • Primeiros sintomas em até 7 dias após a vacinação, mais comum de 2 a 3 dias;

  • Sexo masculino;

  • Crianças, adolescentes e adultos jovens, e

  • Sintomas mais comuns são dor torácica, palpitações e dispneia.

“O desenvolvimento de miocardite é raro, apresenta um bom prognóstico, não há diferenças quanto aos dois tipos de vacina, a suspeita diagnóstica é de fácil realização e a confirmação diagnóstica se dá em centro hospitalares. Os benefícios e a segurança das vacinas mRNA para a Covid-19 são muito superiores aos riscos da miocardite”, reiterou, também, Montera.


Para o professor associado de Cardiologia Faculdade de Medicina da USP - Ribeirão Preto e coordenador da Clínica de Insuficiência Cardíaca do HC-FMRP-USP, Marcus Simões, em princípios gerais, não há grandes estudos prospectivos randomizados, sobre o assunto. O que há são recomendações baseadas na opinião de especialistas.


“Pacientes com diagnóstico confirmado de miocardite, assintomáticos ou com sintomas leves, devem ser hospitalizados para monitoração clínica, dado que a situação pode evoluir rapidamente. Emergência cardiopulmonar pode advir de forma imprevisível. Pacientes que evoluem com hemodinâmica estável devem receber diuréticos iECA/BRA e betabloqueador. Anti-inflamatórios não esteroides (AINES) são úteis no controle de sintomas de pericardite aguda, mas os benefícios na miocardite são controversos. O tratamento de pacientes com hemodinâmica instável deve seguir as diretrizes de insuficiência cardíaca — internação em terapia intensiva, uso de drogas e dispositivos de suporte cardiopulmonar. Pacientes com choque cardiogênico refratário podem necessitar de dispositivos de assistência circulatória mecânica (ACM) ou TX. E mais, arritmia pode ocorrer nas formas mais graves e o tratamento nessas situações também deve seguir as diretrizes”, explicou Simões.


Assista na íntegra ao webinar “Possíveis efeitos adversos das vacinas de mRNA — Foco em miocardites”.

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