SBC lança nova Diretriz de Miocardites

Atualizado: 13 de jul.

Documento integra a edição de julho da revista ABC Cardiol e atualiza condutas no atendimento, diagnóstico e tratamento para a doença


A Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), lançou nesta quinta-feira, 7 de julho, a Diretriz de Miocardites 2022, publicada na revista Arquivos Brasileiros de Cardiologia (ABC Cardiol). O documento atualiza condutas no atendimento, diagnóstico e tratamento em relação à doença.


A diretriz foi elaborada pelos cardiologistas Marcelo Westerlund Montera, Fabiana G. Marcondes-Braga, Marcus Vinícius Simões, Lídia Ana Zytynski Moura, Fabio Fernandes, Sandrigo Mangine, com a participação de dois médicos estrangeiros, Guilherme H. Oliveira, da University of South Florida, dos Estados Unidos, e Heinz-Peter Schultheiss, da Charité – University Medicine Berlin, da Alemanha. Dessa forma, reforça a necessidade da construção científica e da cooperação entre países, mostrando o quanto o Brasil é importante na pesquisa da insuficiência cardíaca das miocardites.


Inflamação no músculo do coração, a miocardite é diagnosticada por critérios histológicos, imunológicos e imuno-histoquímicos. Pode ser causada por diversos agentes infecciosos, como vírus, bactérias e protozoários, entre outros, além de motivos não infecciosos, como drogas e radiação.


Recentemente, a ocorrência de miocardites nos quadros de Covid-19 tem preocupado os especialistas. “Muitos casos aconteceram em pacientes hospitalizados e em outras pessoas, de forma mais leve. Inclusive, a miocardite pode ser ocasionada por uma reação pós-vacinal, geralmente uma condição leve que acomete mais indivíduos jovens do sexo masculino”, explica um dos autores da diretriz, Evandro Tinoco Mesquita, diretor científico do GEMIC – Grupo de Estudos em Miocardiopatias ligado ao Departamento de Insuficiência Cardíaca da SBC e vice-presidente da Sociedade Interamericana de Cardiologia (SIAC).


A diretriz aborda a Covid-19, a miocardite induzida por vacina e chama atenção para as miocardites por arboviroses, como dengue, zika, chikungunya e febre amarela, comuns em países tropicais, como o Brasil. “Também é tratada a febre reumática, que diminuiu muito no Brasil, mas que é importante constar no documento, além das técnicas modernas de ressonância, que têm ajudado no diagnóstico não invasivo”, acrescenta Mesquita.


Outro tema destacado é a miocardite ligada às drogas utilizadas no tratamento do câncer, como na imunoterapia, que visa combater o avanço da doença pela ativação do próprio sistema imunológico do paciente, com grande potencial, inclusive em formas avançadas. “Os cardiologistas e oncologistas que consultarem a diretriz vão aprender a fazer o diagnóstico de forma correta, utilizando elevada suspeita clínica, achados de biomarcadores e ressonância cardíaca. Às vezes será preciso lançar mão do tratamento com corticoide em altas doses e de biópsia miocárdica, padrão ouro do diagnóstico”, expõe o diretor científico do GEMIC.


A diretriz inclui, ainda, as miocardites de causa viral e como tratar alguns casos, como os adenovírus, com medicamentos utilizados em infecções gripais e outros tipos de drogas antivirais modernamente usadas. E também a imunossupressão e a imunomodulação como tratamento das miocardites, especialmente as autorreativas e aquelas ligadas às doenças autoimunes.


“Trata-se de um documento bastante completo e muito didático. O objetivo de todos os pesquisadores foi trazer algoritmos para facilitar sua incorporação na prática clínica. A miocardite, às vezes, pode aparecer de forma fulminante e, em alguns casos, simulando infarto, requerendo elevada suspeita clínica e argúcia, que emergentistas, hospitalistas, médicos da atenção primária e cardiologistas terão a oportunidade de aprender ao folhear, estudar e debater essa diretriz”, comenta Mesquita.


A diretriz está disponível de forma bilíngue, com grande impacto não só na cardiologia brasileira, mas em todo o mundo. “A SBC está muito feliz em lançar no mês em que o Dr. Carlos Chagas nasceu um documento tão importante, vigoroso e cientificamente de altíssimo nível”, salienta.


Insuficiência Cardíaca

As miocardites são grandes causadoras de insuficiência cardíaca, cardiopatia que atinge cerca de três milhões de brasileiros e representa um problema de saúde pública no mundo todo, sendo causa líder de internação no hemisfério norte e um grande desafio ao SUS, principalmente com relação aos idosos.


Até 2030, estima-se que a prevalência da IC aumentará em 25%, segundo a World Heart Federation, o que se deve ao aumento de fatores de risco. O tema é tão importante que, em 9 de julho, é comemorado o Dia Nacional de Alerta Contra a Insuficiência Cardíaca, data em que a SBC aproveita para chamar a atenção sobre o tema.


Esta data foi estipulada por ser o nascimento de Carlos Chagas, biólogo, médico sanitarista, infectologista, cientista e bacteriologista brasileiro. Ele dedicou-se ao estudo das doenças tropicais e descobriu o protozoário do gênero Plasmodium, causador da malária, e o parasita Trypanosoma Cruzi, transmissor da doença de Chagas.


“Como muito bem citou o professor Nelson Botelho Reis, ex-presidente da SBC, o Dr. Chagas foi um dos maiores cientistas do mundo e o primeiro cardiologista moderno do Brasil. Eu corroboro com a visão sobre esse genial médico e pesquisador brasileiro, que ajudou a introduzir o eletrocardiograma no país. Ele foi um homem comprometido com a ciência e o líder na fase final da pandemia, em 1919. Como sanitarista, contribuiu muito com suas ideias e práticas, enfrentando e apontando iniquidades e vazios assistenciais que muito contribuíram na formação do SUS. Também fundou a escola de enfermagem no Rio de Janeiro”, finaliza Mesquita.


Acesse a Diretriz de Miocardites 2022 aqui.

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