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SBC debate o futuro e os desafios da cardiologia

Especialistas apontam que investir em pesquisa e melhorar os indicadores sociais da população podem diminuir os fatores de riscos

para as doenças cardiovasculares


A Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), em comemoração ao Dia do Cardiologista e aos 77 anos da entidade, promoveu, no último dia 14 de agosto, uma live em seu canal no YouTube, transmitida diretamente dos novos estúdios de sua sede no Rio de Janeiro, uma série de entrevistas com importantes cardiologistas para discutir os principais temas e os desafios da especialidade no Brasil.


“Mais do que comemorar, nessa data assumimos o compromisso com cada cardiologista do Brasil de expandir e difundir o conhecimento científico na área, estimulando a pesquisa e divulgando aos mais de 210 milhões de brasileiros que temos médicos muito qualificados, preparados para atender a população brasileira no que diz respeito à prevenção e ao tratamento das doenças do coração”, destacou Marcelo Queiroga, presidente da SBC.


As doenças cardiovasculares, lembrou Queiroga, são um problema de saúde pública, não só no Brasil, mas no mundo, que possui mais de meio bilhão de indivíduos com essas enfermidades. No país, são 14 milhões de brasileiros acometidos por doenças cardíacas. O problema é grave porque essas doenças, principalmente o infarto, são responsáveis por mais de 30% das mortes no Brasil. Uma mortalidade de 380 mil brasileiros todos os anos. “São números muito fortes que falam por si só sobre a necessidade de políticas públicas capazes de mudar esse cenário. A pandemia do novo coronavírus só agrava essa situação, que já é dramática, e reforça a necessidade de fortalecer o sistema público de saúde.”


A emergência em saúde pública atual, para o presidente da SBC, mostra ainda mais a importância da cardiologia, pois os pacientes cardiopatas têm maior risco de evolução desfavorável quando contaminados pelo novo coronavírus. Além disso, Queiroga comentou que os portadores de doenças cardiovasculares sofrem porque os recursos para o atendimento desses pacientes, tanto nas urgências quanto nas situações para o tratamento das doenças crônicas, ficaram restritos devido à pandemia. O receio das pessoas de se contaminarem com o SARS-CoV-2 tem feito elas ficarem em casa ao invés de buscar ajuda médica quando necessária, o que tem contribuído para um maior número de óbitos em domicílio.


A presença feminina na cardiologia e a necessidade de mais atenção com a saúde cardiovascular das mulheres foi defendida pela coordenadora de Acompanhamento da Gestão e Controle Interno da SBC e do programa de Pós-Graduação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Glaucia Moraes.

Ela revelou que dos atuais 16 mil cardiologistas no país, apenas cerca de 30% são do sexo feminino, que é preciso chamar as mulheres para cuidar do coração da população brasileira. “São poucas mulheres envolvidas no cuidado do coração. Além disso, o número de médicas na situação de líderes é pequeno. Precisamos que as mulheres se envolvam e participem mais”, afirmou Glaucia.


A coordenadora apontou que as mulheres estão muito mais presentes no setor acadêmico público, onde 53% das profissionais são do sexo feminino, e menos na iniciativa privada. Mas se for contar as mulheres como primeiras autoras dos artigos científicos, esse índice cai para 30%. “Apesar de nós pesquisarmos iguais, temos muito mais homens liderando essas publicações”, disse Glaucia, que também lamentou o fato das médicas e pesquisadoras terem remuneração muito inferior à dos homens. “Se você considerar um corte que foi feito pela demografia médica, os homens ganham dez vezes mais do que as mulheres ocupando os mesmos cargos e demandando o mesmo tempo de trabalho. As cardiologistas precisam se movimentar para tentar mudar esse cenário.”


Há também a necessidade, segundo a cardiologista, de dar mais atenção à saúde cardiovascular das mulheres, que estão adoecendo mais. O estudo feito a partir dos dados da plataforma on-line Estatísticas Cardiovascular Brasil: 2020, recém-lançada pela SBC, mostrou que a prevalência da doença cardiovascular é muito maior nas mulheres entre 15 e 49 anos e que vem aumentando as mortes por doenças isquêmicas, como o infarto do miocárdio, nas mais jovens. “Devemos implementar medidas de prevenção primária e conscientizar a população sobre os sinais e sintomas dessas doenças nas mulheres, que nem sempre se apresentam da forma clássica divulgada. Essa prevalência faz com que nós precisemos fazer campanhas para esse público, não somente para a população que está na menopausa”, alerta Glaucia, que lembrou que as mulheres hoje têm mais ou menos os mesmos riscos que os homens para as doenças cardiovasculares. “É preciso fazer novas campanhas, chamar a atenção, melhorar a prevenção dessas mulheres para que se tenha menos incidência dessas comorbidades.”


Para Glaucia, é importante ressaltar que a maioria dos ensaios clínicos realizados para o tratamento das doenças cardiovasculares foram realizados com pouca representatividade feminina. Assim, é preciso estimular estudos que sejam feitos para e por mulheres, para aumentar a participação delas nas pesquisas clínicas a fim de que se consiga enfrentar as doenças cardiovasculares nelas com mais eficiência.

Incentivo às pesquisas


Apesar do cenário difícil que o mundo enfrenta devido à Covid-19, para Fernando Bacal, diretor científico da SBC e do Núcleo de Transplantes do InCor do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), para o setor de pesquisas tem sido positivo. “Foi surpreendente em meio à situação de emergência que vivemos ver a valorização dos profissionais de saúde, da ciência, dos pesquisadores e ver os avanços das descobertas sobre o novo vírus e suas complicações, a busca por medicamentos para o tratamento e o desenvolvimento de novas vacinas, inclusive no Brasil. Isso estimula que os grandes especialistas não saíam do país e dediquem-se mais às pesquisas”, destacou.


Nesse contexto, Bacal ressaltou o papel da SBC, que com a missão difundir o conhecimento científico, que deu continuidade ao programa de educação médica a distância de qualidade, com foco na melhor evidência disponível, promovendo, semanalmente webinares temáticos, mantendo ativa a agenda científica da entidade, por entender ser importante, mesmo diante da situação de emergência em saúde pública imposta pela pandemia de Covid-19, abordar temas de relevância para a prática clínica do cardiologista. “Já foram realizados mais 50 encontros on-line, além do conhecimento adquirido, a troca de experiências com outros especialistas e o compartilhamento das angústias e dos desafios têm sido importante e necessário.”


Para ele, este será um dos legados da pandemia: o uso das ferramentas on-line para disseminar conhecimento, assim como a telemedicina e as parcerias público-privadas na área da saúde, até então consideradas inviáveis. “São vários braços trabalhando juntos em busca de um bem comum: a saúde da população.”


E ampliar o desenvolvimento em pesquisa para Nelson Souza e Silva, professor emérito da UFRJ, é um dos caminhos para superar o maior desafio da cardiologia que é reduzir os óbitos por doenças cardíacas. Ele disse que o primeiro passo é usar os dados que se possui dos Indicadores de Desenvolvimento Humano (IDH) para entender a condição de vida da população e o quanto ela impacta nos fatores de riscos das doenças cardiovasculares. “É possível evitar essas enfermidades controlando os fatores de riscos que estão relacionados com a condição de vida da população. Quem tem menos condições de moradia, de trabalho e de educação, também tem menos informação e acesso a uma alimentação saudável, à prática de atividade física e hábitos saudáveis”, alertou o cardiologista.


Para Nelson Souza e Silva, teremos resultados piores no controle e no número de mortes por doenças cardiovasculares se nos preocuparmos apenas em controlar alguns indicadores, como a pressão arterial, o diabetes e o colesterol, do que se melhorarmos a condição de vida e alimentação da população brasileira. “Melhores condições de justiça social são a grande receita para melhorar as condições de vida e mais saúde para a população de um país continental como o nosso, com tanta heterogeneidade”, afirmou.


E para mudar este cenário, o professor acredita ser preciso mais investimentos e mudar a maneira de atuar na saúde pública. Ponto também defendido pelo presidente da SBC. “Os críticos são aqueles que não usam o SUS. A pandemia mostrou a importância do nosso sistema público de saúde, porque se não tivéssemos um setor estruturado, como teríamos condições de atender as pessoas neste momento tão difícil?”, questionou Queiroga.


Outro ponto defendido por Silva é que deve haver mudanças na forma de ensinar a medicina. Para o professor, a função da universidade é formar cidadãos, pessoas que entendam as condições da população para que possam tomar decisões mais assertivas e que intervenham na real situação e na saúde dessas pessoas. “É preciso sair do determinismo e preparar o aluno de medicina para trabalhar com a teoria dos sistemas dinâmicos complexos, entender como o todo funciona para compreender que as condições de vida importam e que atuar nelas é o que fará a diferença na saúde da população”, destacou.


De mesma opinião, o professor titular de cardiologia da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), Denilson Albuquerque, também defendeu o investimento em tecnologia como mola propulsora para o tripé assistência, pesquisa e ensino para a medicina de qualidade. “A cada dois minutos uma pessoa morre no mundo em decorrência das doenças cardiovasculares. Estamos vivendo um novo normal que trouxe a necessidade do aprimoramento dos cardiologistas, que estão tendo de dar respostas ao mundo. As pesquisas, a qualidade dos nossos especialistas e a oferta de uma assistência adequada, com a tecnologia que temos hoje, têm proporcionado ao Brasil dar respostas à comunidade científica internacional”, afirmou.

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