Síndrome pós-Covid requer acompanhamento médico para uma avaliação mais ampla e segura

Cardiologistas alertam que doença é uma enfermidade sistêmica, que ataca outros órgãos, além do sistema respiratório, e vencê-la não significa parar com o tratamento. Exames clínicos e de imagem são fundamentais para o controle da saúde


A Covid-19 é uma enfermidade sistêmica que, além do sistema respiratório, pode afetar o coração, o cérebro e os rins, ocasionando alterações agudas como distúrbios do sono, problemas musculares e articulares, fadiga, entre outros sintomas que se manifestam de maneira individualizada nos pacientes. Os cuidados com a saúde dos que tiveram Covid-19 não deve cessar ao vencer a doença. O acompanhamento médico deve seguir nos meses subsequentes para uma avaliação mais ampla e segura.


Estar curado não significa que o vírus deixou o organismo da pessoa ileso. Sequelas podem perdurar por meses, inclusive nos indivíduos que tiveram a forma leve da infecção.


Estudos estimam que somente entre 10 e 20% dos pacientes relatam recuperação completa nos primeiros meses depois da doença. Cerca de 50% daqueles que tiveram Covid-19 descrevem sequelas posteriores, como fadiga incomum, dores de cabeça e no peito, alteração na memória e perda do olfato.


“Não existe um protocolo para tratamento de Covid 19, mas existe aquilo que não pode faltar. O tratamento é individualizado, porque a resposta clínica é extremamente heterogênea. Dentre os sinais e sintomas dos pacientes que permanecem após a doença estão fadiga, tosse, dor de cabeça e corpo, febre, calafrios, perda de paladar, dispneia, diarreia, dor de garganta e abdominal, confusão e vômitos”, fala a diretora extraordinária de Ciência, Tecnologia e Inovação, da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), Ludhmila Abrahão Hajjar.


No caso do coração, a Covid-19 pode causar miocardite, inflamação no músculo do órgão, mesmo em pacientes que não apresentaram um quadro grave e até entre assintomáticos. O músculo cardíaco é responsável pela contração do coração e quando inflamado prejudica o bombeamento de sangue pelo corpo, levando a arritmias ou até insuficiência cardíaca.


Ludhmila é uma das autoras do estudo Worldwide Survey of Covid-19 – Associated Arrhythmias, que, após análise em todos os continentes, atestou que 61% dos doentes hospitalizados com Covid-19 terão fibrilação atrial, por exemplo. Concluiu-se que arritmias cardíacas são comuns e estão associadas a alta morbimortalidade entre doentes pelo coronavírus.


“Sim, eu devo fazer um check-up no meu paciente, seguir, avaliar, e eu devo persistir na avaliação científica para que consiga pelo menos estabelecer um modelo razoável que tenha custo-efetividade. O manejo é personalizado, individualizado, mas deve se fazer uma avaliação clínica e de imagem pós-Covid”, reitera Ludhmila.


Quanto a lista de exames do check-up pós-Covid, ela também varia de paciente para paciente. Isso porque, conforme a diretora extraordinária de Ciência, Tecnologia e Inovação, da SBC, afirma, o atendimento deve ser, obrigatoriamente, especializado e individualizado. Quem teve sintomas leves deve realizar exames clínicos e laboratoriais de rotina, como hemograma completo.


Já aqueles que tiveram casos moderados, podem realizar exames de imagem, como ecocardiogramas ou tomografias e o ideal é que sejam realizados um mês após o fim dos sintomas da Covid-19. Quanto aos pacientes que enfrentaram a forma grave, com internação e uso de respiradores, a investigação deve ser ainda mais criteriosa e com o auxílio especializado.


Segundo o vice-presidente do Departamento de Imagem Cardiovascular, da SBC, André Almeida, até pouco tempo o foco dos médicos era no paciente com Covid-19, mas isso vai passar. Quando 70% da população estiver vacinada, isso não significa que as pessoas deixarão de ficar doentes, mas os casos diminuirão. É, então, que a síndrome pós-Covid deverá ser analisada com mais cautela.


“A síndrome pós-Covid é caracterizada pela presença de sinais e sintomas que se desenvolveram durante a infecção, permanecem por 12 semanas, e não são explicados por um diagnóstico alternativo. Ouso dizer que vai lotar salas de consultórios de medicina, fisioterapia, psicologia durante muito tempo ainda. Enquanto a curva da Covid-19 vai diminuir com a vacinação, os pacientes com síndrome pós-Covid perdurarão. De 12 semanas em diante e até onde ainda não sabemos”, ressalta Almeida.


O cardiologista cita um estudo inglês, Post-covid syndrome in individuals admitted to hospital with covid-19: retrospective cohort study, que descreveu a síndrome pós-covid em indivíduos internados no hospital com Covid-19.


Ao longo de um acompanhamento médio de 140 dias, quase um terço dos indivíduos que tiveram alta hospitalar após Covid-19 aguda foram readmitidos e mais de 1 em 10 morreram após a alta, com esses eventos ocorrendo em taxas quatro e oito vezes maiores, respectivamente, do que no grupo de controle pareado. Taxas de doença respiratória, diabetes e doença cardiovascular também aumentaram, significativamente, com 770 diagnósticos por 1000 pessoas.


Indivíduos que receberam alta hospitalar após Covid-19 tiveram taxas aumentadas de disfunção de múltiplos órgãos em comparação com o risco esperado na população em geral. O aumento do risco não se limitou aos idosos e não foi uniforme entre as etnias. O diagnóstico, o tratamento e a prevenção da síndrome pós-covid requerem abordagens integradas, em vez de abordagens específicas de órgãos ou doenças, e pesquisas urgentes são necessárias para estabelecer os fatores de risco.


Para Almeida, exames de imagem são imprescindíveis nesse contexto. Mas quando fazê-los? Ele explica:


“Pacientes que não realizaram tomografia de tórax durante o curso da doença e que não apresentam sintomas cardiopulmonares atuais não precisam realizar após doença. Pacientes que tiveram um infiltrado pulmonar, ou outra anormalidade identificada em imagens obtidas durante a Covid-19, devem fazer tomografia para acompanhamento. E qualquer paciente com sintomas respiratórios novos ou piorando, ou um exame físico cardiopulmonar anormal após uma infecção pela Covid devem fazer tomografia de tórax”, detalha o vice-presidente do DIC/SBC.


No caso de ecocardograma transtorácico, não deve ser rotina em pacientes que foram assintomáticos ou tiveram sintomas leves, mas devem ser feitos por aqueles que desenvolveram miocardite ou tiveram miopericardite detectada durante a fase aguda da Covid-19.


Assista ao webinar Check-Up Pós Covid - Podemos Indicar?, promovido pela SBC, AQUI.

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