Recomendações dietéticas para a síndrome metabólica: modismos versus evidências científicas

Um recente estudo investiga a eficiência da recomendação de “dietas sem glúten” no manejo da síndrome metabólica






Efeitos positivos para o tratamento da síndrome metabólica estão mais relacionados à adesão de mudanças no estilo de vida, incluindo melhores escolhas alimentares de forma individualizada, do que com uma dieta isenta de glúten. A conclusão pertence ao artigo Does a Gluten-free Diet Improve Metabolic Syndrome Parameters? A Systematic Review, publicado na última edição da International Journal of Cardiovascular Sciences (IJCS), periódico internacional da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC).


A intenção da pesquisa era comprovar se realmente existe um efeito positivo da “dieta sem de glúten” sobre os parâmetros da síndrome metabólica.


Tradicionalmente, a gestão da síndrome metabólica tem sido focada em atenuar os fatores de risco modificáveis, como o sobrepeso e a obesidade. A partir de mudanças no estilo de vida, é possível reduzir a incidência da doença e suas complicações.


“A necessidade de desenvolver um trabalho com esse tema veio muito da nossa observação na área de Nutrição Clínica e da crescente utilização de estratégias dietéticas, pautadas em dietas restritivas, como a sem glúten”, pontua Luciana Gonçalves Orange, docente do curso de Nutrição da Universidade Federal de Pernambuco, Centro Acadêmico de Vitória.


A pesquisa utilizou o método de revisão sistemática. A seleção inicial contou com cerca de três mil trabalhos publicados, dos quais poucos consideravam os parâmetros da síndrome metabólica em pessoas sem doenças caracterizadas pela intolerância ao glúten, como a doença celíaca. Ao final, foram selecionados quatro estudos da literatura nacional e internacional. Destes, somente um foi realizado no Brasil.


Alguns efeitos positivos isolados são pontuados, como a redução de algumas medidas de cintura e de triglicerídeos plasmáticos. Porém, a resposta varia de acordo com os grupos analisados. Por exemplo, um dos estudos avaliou somente um grupo de mulheres e nesse foi percebido um efeito positivo sobre a redução da circunferência da cintura. De forma geral, os resultados analisados diferem muito de acordo com os grupos e a metodologia utilizada.


“O que se percebe é que não existe nenhuma comprovação científica de que, para a redução dos parâmetros da síndrome metabólica, ou mesmo para o controle do peso corporal, a dieta isenta de glúten é efetiva”, afirma Luciana.


Além das dietas isentas de glúten, outras recomendações ganham espaço, como as dietas cetogênica e mediterrânea. A Associação Brasileira de Estudos sobre Obesidade não traz um respaldo científico para a utilização de tais dietas no manejo da síndrome metabólica.


A docente e pesquisadora ainda pontua a necessidade de futuras investigações sobre o tema com metodologias científicas mais bem definidas e padronizadas.


Além disso, destaca-se a necessidade de um tratamento dietético individualizado, pautado na história de vida e nas experiências do indivíduo com a comida e seus hábitos alimentares: “é necessário considerar que a comida não é só fonte de nutrientes, existe toda uma questão social, cultural e política envolvida com o ato de comer, que devem ser consideradas em qualquer situação”.


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