Prevenção, pesquisa e ações para a saúde cardiovascular pautam conferência no Dia Mundial do Coração

Especialistas nacionais e internacionais apresentaram dados e deixaram mensagens fundamentais para o avanço no combate às doenças cardiovasculares no Brasil e no mundo

“Dia Mundial do Coração” foi o tema do webinar #141 da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), realizado na noite de 29 de setembro. Este foi mais um evento virtual e gratuito em comemoração à data promovido pela entidade.

“Nada mais apropriado que falarmos da principal causa de mortes no Brasil e no mundo, que são as doenças cardiovasculares. Para discutir o assunto, trazemos grandes especialistas nacionais e internacionais”, iniciou Celso Amodeo, presidente da SBC e moderador do encontro.


O primeiro convidado foi Alvaro Sosa Liprandi, presidente da Sociedade Interamericana de Cardiologia (SIAC), que ministrou palestra sobre saúde cardiovascular na América Latina. Entre os dados apresentados, ele mostrou que em 2019, as pessoas com 65 anos ou mais na região das Américas representavam 12% da população total da região. A previsão para 2050 é que chegue a 15%.

A porcentagem de adultos, homens e mulheres, com obesidade e sobrepeso passou dos 50%, crescendo muito de 1995 para 2016. Outros dados revelam que 72% das mulheres entre 67 e 77 anos e 57% dos homens entre 52 e 62 anos na América Latina e Caribe têm tendência à hipertensão arterial. “Os desafios da medicina são justamente a incidência de hipertensão, obesidade e diabetes”, ressaltou Liprandi, constatando que há uma brecha entre o conhecimento e a ação.

Ele também apresentou o impacto da pandemia em pacientes com doenças cardiológicas sem evidência de infecção pela Covid-19. As restrições de mobilidade, o toque de recolher e a quarentena colaboraram para o aumento do consumo de cigarro e bebida alcoólica, assim como os sintomas de depressão. Durante a pandemia, as pessoas também reduziram a prática de atividade físicas e a aderência a tratamentos de saúde.

O presidente da SIAC apontou, ainda, o impacto positivo da polipílula para a prevenção do risco cardiovascular na América Latina, segundo documento publicado pela entidade. O medicamento é recomendado em programas de saúde pública, demonstrando redução significativa da pressão arterial sistólica e do colesterol. “Outra ação eficaz é a vacinação contra Influenza, que reduz de 36% a 53% as mortes por doenças cardiovasculares e reduz em 15% as ocorrências de AVC”, expôs.

Em se tratando de prevenção, Liprandi indicou que os celulares podem ser uma ferramenta essencial para comunicação, detecção e controle dos fatores de riscos. A implementação de uma plataforma remota interativa pode melhorar a aderência ao tratamento em pacientes com insuficiência cardíaca. “Estamos convencidos que, na América Latina, os celulares serão uma grande ferramenta de prevenção”, reforçou.

Ações pelo mundo

Já Fausto Pinto, presidente da World Heart Federation (WHF), abordou o papel da entidade nas ações de prevenção da doença cardiovascular pelo mundo. Mesmo durante a pandemia de coronavírus, as mortes por doenças cardiovasculares foram maiores (exceto no pico de mortes por Covid-19 em janeiro de 2021). Inclusive, foi notícia no The New York Times que o coronavírus criou uma onda de doenças do coração.

Foi então que ele destacou a missão da WHF, de conectar e liderar a comunidade relacionada às doenças cardiovasculares, transformando a ciência em ação, estimulando a troca de conhecimentos. “Como organização, iremos contribuir para reduzir em 33% as mortes prematuras por doenças cardiovasculares até 2030”, expôs.

Entre as ações da entidade está o desenvolvimento de roadmaps, que ajudam a identificar desafios e sugerem soluções para tópicos que impactam na mortalidade cardiovascular. Outras iniciativas envolvem a conscientização sobre o impacto da poluição do ar; prevenção e formas de tratamento para doenças reumáticas e doenças de Chagas; combate ao tabaco; implementação de etiquetas na parte da frente de embalagens de alimentos; e o impulsionamento da vacinação massiva contra a Covid-19.

“Nosso objetivo é advogar em nível global e nacional para alcançar a saúde cardiovascular para todos”, finalizou Fausto.

Guia de Prevenção Primária

Antonio Carlos Palandri Chagas, presidente do Departamento de Aterosclerose da SBC, dedicou sua fala à política do American College of Cardiology (ACC) para prevenção cardiovascular.

Ele começou apontando a influência da urbanização no aumento dos fatores de risco a doenças e o crescimento da expectativa de vida, que requerem foco em iniciativas de prevenção. Na sequência, apresentou o Guia de Prevenção Primária, desenvolvido pela ACC e pela American Heart Association, com 10 mensagens para serem lembradas e, principalmente, executadas.

Entre elas está que a melhor maneira de prevenir a doença vascular aterosclerótica, insuficiência cardíaca e fibrilação atrial é a promoção de um estilo de vida saudável ao longo da vida. Outra mensagem diz que para adultos com diabetes mellitus tipo 2, mudanças no estilo de vida, como melhora nos hábitos alimentares e cumprir as recomendações de exercícios, são cruciais.

Chagas apresentou uma imagem que, segundo ele, vale mil palavras. “Do lado esquerdo de um atendimento, uma fila enorme para medicamentos e cirurgias. Do lado direito, ninguém está buscando mudança no estilo de vida. O grande desafio da prevenção é que as pessoas não querem mudar.”

Na sequência, apresentou o programa SBC vai à Escola, que, justamente, enfrenta esse desafio através da educação de crianças e jovens. A iniciativa, que está se expandindo no Brasil, forma monitores para conscientização sobre a importância da atividade física, da nutrição e dos momentos de relaxamento, incluindo aulas de reanimação cardiopulmonar (RCP). “Os alunos levam a mensagem de prevenção para casa, fazendo com que a ação tenha efeito em toda a sociedade”, frisou Chagas.

Pesquisa no Brasil

Encerrando as apresentações da noite, Otávio Berwanger, diretor da Academic Research Organization, do Hospital Israelita Albert Einstein, tratou dos caminhos da pesquisa cardiovascular no Brasil.

“O Brasil é um local único para pesquisa clínica cardiovascular devido à alta carga de doenças, à diversidade populacional e à excelência em pesquisa. As sociedades médicas têm forte presença e atuação, há instituições de ensino e pesquisa de excelência, sem falar nas parcerias internacionais”, ressaltou.

Altas taxas de recrutamento e estudos clínicos, qualidade de dados, custos competitivos e boa articulação das autoridades com o governo são outras qualidades.

Por outro lado, Berwanger destacou pontos de atenção e melhoria. “Alguns profissionais realizam pesquisas como projetos pessoais, perdendo a oportunidade de ampliar esses estudos. Com instituições acontece a mesma coisa. Essas rivalidades deveriam ser corrigidas. Juntos somos mais fortes. A área de cardiologia precisa se unir mais.”

Também incomoda Otávio o fato de o Brasil ser coadjuvante em estudos clínicos, com participação mais operacional do que intelectual. “Quanto às agências de fomento, elas têm um grande papel, mas é importante ter modelos diferenciados de pesquisa. Precisamos ter especificidade, e há espaço para isso”, acrescentou.

Mesmo com essas dificuldades, o Brasil vem dando passos importantes de 2010 para cá, liderando landmarks mundialmente. “O que era ocasional, virou uma realidade. Não se vai mais hoje a um grande congresso sem ver brasileiros apresentando estudos”, disse Liprandi.

Entre os fatores necessários para o sucesso, citou a colaboração, a liderança conjunta, o protagonismo internacional, a colaboração internacional de forma igualitária, a revisão de modelos de financiamento por agências de fomento, o apoio de indústrias farmacêuticas e múltiplos centros coordenadores/ações colaborativas, como aconteceu durante a pandemia, entre Albert Einstein, HCor, Sírio-Libanês, Moinhos de Vento, Oswaldo Cruz, BP, BCRI e BRICNet.

O webinar #141 também contou com a participação de Fernanda Colombo, do Departamento de Hipertensão Arterial da SBC, como debatedora. “Estou honrada em fazer parte desse grupo, foi uma noite muito inspiradora, tanta gente boa pensando em como melhorar o planeta.”

Ela colocou um questionamento: nas questões de prevenção, como ter impacto social com ações simples e ao mesmo tempo valorizar essa simplicidade, para que o médico não ache que está fazendo algo simplório. E como unir isso com grandes registros clínicos?

Berwanger comentou que a tecnologia permite obter esses dados, descentralizando algumas ações através de ferramentas simples e pragmáticas. “É uma necessidade para melhorar a prática clínica. Colaborar é a palavra da vez, como a pandemia nos ensinou nos projetos de Covid-19.”

Tânia Martinez, do Departamento de Aterosclerose da SBC, também participou como debatedora. Ela aproveitou para parabenizar o programa SBC vai à Escola, que está saindo da intermunicipalidade para a interestadualidade. “Chagas, muito obrigada. É uma honra ver a sua trajetória de vida e sua doação a toda comunidade. Esta glória se estende a todos nós”, comentou.

A cardiologista aproveitou para ressaltar a importância da formação dos jornalistas na área de saúde, focando na prevenção das doenças cardiológicas.

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