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Planejamento estratégico efetivo pode amenizar impacto da Covid-19 na saúde pública

Para o cardiologista Paulo Márcio Sousa Nunes, superintendente do Hospital Universitário da Universidade Federal do Piauí (HU-UFPI), telemedicina é grande aliada na assistência à população



O agravamento da pandemia do novo coronavírus no Brasil acabou por atingir ainda mais as regiões onde a infraestrutura de saúde já era insatisfatória, como em Manaus (AM), onde os pacientes com Covid-19, desde a primeira quinzena de janeiro, têm sofrido com a falta de oxigênio nas unidades hospitalares.


Manaus foi a primeira capital brasileira fortemente afetada pelo novo coronavírus, em abril e maio de 2020, quando a cidade enfrentou a explosão de casos e superlotação de hospitais. A partir de junho, as ocorrências caíram, mas voltaram a subir em setembro e se aceleraram em dezembro, chegando ao quadro crítico atual.


Atendendo à convocação do Ministério da Saúde, por meio da Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (EBSERH), que gerencia 41 hospitais universitários no Brasil, o HU da Universidade Federal do Piauí (HU-UFPI) foi a primeira unidade hospitalar do país a receber pacientes com Covid-19 transferidos do Amazonas.


Tendo como superintendente o cardiologista clínico e intervencionista e ex-diretor de Comunicação da Sociedade de Cardiologia do Piauí (SBC-PI) – gestão 2012-2013, Paulo Márcio Sousa Nunes, o HU-UFPI já recebeu, desde o dia 15 de janeiro, 23 pacientes amazonenses, sendo que sete já tiveram alta. Os demais seguem com quadro estável e respirando sem a ajuda de aparelhos, mas estão na unidade de terapia intensiva (UTI) porque exigem cuidados intensivos.


“O HU se apresentou pronto, preparado e sereno para enfrentar esse momento e receber prontamente a demanda de Manaus, com infraestrutura e equipe qualificadas no atendimento a esses pacientes”, destacou Nunes, que informou que o hospital tem trinta leitos disponíveis para acolher os pacientes, sendo vinte deles habilitados como leitos UTI, garantindo, assim, a capacidade de atendimento que o Amazonas não tem. Segundo o superintendente, Teresina e o Hospital Universitário têm abastecimento de oxigênio em quantidade suficiente para atender a todos.


Isso foi possível, segundo Nunes, devido ao planejamento feito antes da convocação pela EBSERH. “Todo gestor público deve ter um plano estratégico montado para enfrentar a Covid-19 porque ela não acabou, pelo contrário. No HU-UFPI preparamos a gestão para ser efetiva para quando a pandemia chegasse aqui. Por isso, estamos prontos para devolver para a nação um bom trabalho que é cuidar de pessoas”, ressaltou.


A falta de coordenação e decisões equivocadas sobre a pandemia, para o superintendente do HU, também podem ter contribuído para o difícil cenário da saúde na região Norte.


“Enfrentar essa realidade passa necessariamente também por dirimir os problemas de infraestrutura manifestados pela desigualdade regional. O objetivo deste enfrentamento não pode ser uma resolução paliativa. Deve-se ter em mente que o problema de Manaus é também do Brasil”, afirmou Nunes, que acredita que a crise provocada pelo novo coronavírus trouxe vários ensinamentos à humanidade, entre eles o compartilhamento de informações e experiências e a solidariedade. “Neste momento, o mais importante são os gestos humanitários de todos nós.”


O Hospital Universitário da UFPI, que é reconhecido pelo desenvolvimento da alta complexidade, inclusive em cirurgias cardiovasculares, fez, além das adequações em infraestrutura, o planejamento de ações para garantir assistência segura e de qualidade, como a contratação de novos profissionais temporários, a exemplo de fisioterapeutas, médicos, enfermeiros e técnicos de enfermagem, reforçando o quadro da equipe multiprofissional que presta assistência e cuidados aos pacientes com Covid-19.


Além disso, houve capacitação dos que já eram do quadro de pessoal do hospital e foram treinados para esta nova realidade. Foram disponibilizados, desde o início da pandemia no estado, cursos de capacitação em dez modalidades, que são realizados de forma presencial no laboratório de simulação realística do hospital e ministrados por profissionais da equipe assistencial do HU, que são referências nas áreas médica, de enfermagem e fisioterapia. Também disponibilizaram cursos autoinstrucionais por meio de vídeos.


Atendimento a distância


Outro investimento feito pelo HU-UFPI e que muito tem auxiliado na assistência à população durante a pandemia é o Núcleo de Telessaúde, que oferta atendimento a distância a dezenas de pessoas em várias cidades do Piauí.


“Com todas as atenções voltadas para o novo coronavírus e a recomendação para a população ficar em casa, houve uma mudança nos hábitos da sociedade e muitos deixaram de visitar o médico de maneira periódica. Devido à Covid-19, ao alto número de tratamento nos hospitais e a concentração dos cuidados com os infectados, as pessoas com outros problemas de saúde, como as doenças cardiovasculares, estão deixando de buscar atendimento médico, e a telemedicina é uma grande aliada tanto dos pacientes como das instituições médicas, além de abrir possibilidades de redução de custos e maior eficiência”, afirma Paulo Márcio Nunes, que também é presidente da Associação Médica Brasileira no Piauí (AMB-PI) e professor adjunto de Cardiologia da UFPI desde 2010.


Para ele, o atendimento a distância é fundamental para os pacientes cardiopatas, pois há uma íntima relação entre a cardiopatia e a Covid-19, e os portadores de doenças cardiovasculares são as principais vítimas das formas graves da infeção pelos SARS-CoV-2. “Estima-se que 70% dos óbitos por Covid-19 no mundo foram em pacientes com algum grau dessas enfermidades”, ressaltou o superintendente do HU-UFPI, que reforçou o quanto é importante que os cardiopatas mantenham o distanciamento social, façam seus tratamentos adequados e não deixem de contatar seus cardiologistas. “Por isso, a prática da teleconsulta e do teleatendimento é tão importante”, garantiu.


Com os pacientes recebendo orientação e monitoramento em casa, para Nunes, as clínicas e os hospitais ficam livres para quem realmente precisa de um cuidado presencial. “Também é interessante observar que os atendimentos remotos podem ajudar a diminuir a pressão nos sistemas de saúde, um dos principais pontos de preocupação dos especialistas em relação a pandemias”, concluiu.

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