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Pesquisa e ciência têm papel vital na luta contra o novo coronavírus

Para a patologista Marisa Dolhnikoff, que identificou pela primeira vez evidências do SARS-CoV-2 em células cardíacas, o reconhecimento dos profissionais de saúde e do atendimento no SUS é o legado da pandemia



Nesse momento de crise mundial em saúde pública, ciência, pesquisa e inovação têm sido as palavras-chaves na busca por respostas que ajudem a combater o novo coronavírus. As instituições de ciência e tecnologia, como institutos federais, universidades e organizações de pesquisa tornaram-se protagonistas nessa árdua missão de encontrar soluções em prol da sociedade.


A mobilização da comunidade científica aconteceu de forma inédita, com um número enorme de pesquisadores, das mais diferentes áreas, todos voltados de forma colaborativa para o estudo da nova doença: a Covid-19. “O reconhecimento por grande parte da população do papel vital da pesquisa e da ciência, da atuação dos profissionais de saúde e do atendimento no Sistema Único de Saúde (SUS) talvez tenha sido um dos poucos ganhos desta pandemia”, afirma Marisa Dolhnikoff, médica patologista e professora da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP).


Ela é a primeira autora do estudo que relatou a presença de partículas do SARS-CoV-2, pela primeira vez, em células musculares cardíacas, determinando uma relação causal entre a Covid-19 e a síndrome inflamatória multissistêmica pediátrica (SIM-P) – um processo grave que pode afetar diversos órgãos, inclusive o coração.


A SIM-P começou a ser relatada a partir de abril na Europa e nos Estados Unidos. “Ela é descrita como uma síndrome temporalmente associada à Covid-19, mas não havia até então a confirmação da relação causal entre o SARS-CoV-2 e a SIM-P. Nosso estudo descreveu as alterações associadas à síndrome e mostrou também relação direta entre a infecção pelo novo coronavírus e o quadro grave de disfunção e falência cardíaca na paciente de 11 anos, que não sofria de doença preexistente e até então era saudável, mas morreu de insuficiência cardíaca um dia após ser internada no Hospital das Clínicas da FMUSP”, explica a patologista.

O estudo foi feito a partir da análise de tecidos de algumas partes do corpo da criança e os resultados indicaram que, no caso da menina, o principal alvo da doença foi o coração.


Em um microscópio eletrônico, analisaram-se amostras do coração, pulmão, baço, cérebro, rins bem como músculos da coxa e da pele. Foram encontradas áreas com necrose no coração, pequenos coágulos em artérias do pulmão e dos rins, além de danos hepáticos.


A análise foi publicada na revista médica The Lancet Child & Adolescent Health, em agosto, e aponta que a infecção das células endoteliais no endocárdio pode resultar na disseminação hematogênica do SARS-CoV-2 para outros órgãos e tecidos. “Esta foi a primeira vez que o novo coronavírus foi detectado em cardiomiócitos de um paciente com Covid-19. O vírus não só estava presente nessas células, mas também teve clara ação lesiva, evidenciada por importantes alterações estruturais das células infectadas”, destacou Marisa.


Para a médica, os resultados da investigação mostram o potencial lesivo do novo coronavírus no coração e abrem caminho para tratar melhor o que se considera ser a forma infantil grave da Covid-19. “Sabemos que uma parte dos pacientes com essa doença em sua forma grave apresenta manifestações cardíacas que envolvem tanto alterações isquêmicas como inflamatórias. Acredito que a ação direta do vírus no tecido cardíaco tem papel importante nos dois eventos: na lesão inflamatória e na ocorrência de possíveis fenômenos imunotrombóticos e isquêmicos no coração. O entendimento desses mecanismos pode contribuir para o direcionamento das opções terapêuticas”, ressalta.


Pela valorização da ciência e da educação


Professora há mais de 20 anos na FMUSP, Marisa é entusiasta da pesquisa científica e comemora os bons resultados alcançados pelos pesquisadores brasileiros durante a pandemia, a convergência das agências financiadoras – o que permitiu a captação de recursos para grupos de pesquisa com grandes projetos – e os financiamentos internacionais, como o feito pela Fundação Bill e Melinda Gates.


No entanto, lamenta o crescimento evidente de grupos negacionistas da gravidade da Covid-19, os movimentos antivacina e o descaso do governo brasileiro em relação às recomendações sanitárias básicas. “Cabe à comunidade científica, cada vez mais, ser atuante nas políticas de saúde pública e na divulgação clara e acessível do papel da ciência na nossa vida e na nossa saúde”, afirma a médica.


Ela vê com preocupação a postura do governo federal com relação tanto à ciência quanto à educação e acredita que a população sentirá as consequências dos cortes de verbas e de bolsas de pesquisa nessas áreas nos últimos anos, da falta de incentivo à iniciação científica, da interrupção da formação de jovens pesquisadores e da evasão de grandes cientistas por muito tempo.


A solução, segundo Marisa, é, sem dúvida, investimento e valorização da educação básica. “Solucionar a tragédia em que se encontra o ensino fundamental, com a seriedade que o assunto merece, é condição si ne qua non para qualquer perspectiva de desenvolvimento. Jamais seremos uma potência em pesquisa ou em qualquer outra área com um grande contingente de analfabetos funcionais”, garante.

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