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O cigarro não é mais a única preocupação na saúde pública

A coordenadora de Ações Relativas ao Tabagismo da SBC, Jaqueline Scholz, alertou profissionais de atenção primária sobre a importância de olhar para outros fatores de risco de doenças cardiovasculares como a cannabis, cigarros eletrônicos e narguilé, durante webinar com o CONASEMS



Acompanhamento da saúde mental, combinado com medicação e adoção de estratégias comportamentais, como a técnica do castigo, também foram destaque


Apesar do número de fumantes estar diminuindo desde 1993, o tabagismo não deixou de ser uma preocupação e uma questão importante da saúde pública. Pelo contrário, o cigarro é considerado a parte de entrada para outras drogas ilícitas, cujo consumo tem cada vez mais aumentado, em especial entre a população mais jovem, em nível mundial. Por conta desse cenário, “Tabaco e outras drogas - tratamentos e abordagens multiprofissionais na Atenção Primária”, foi o tema do webinar realizado pela Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) em parceria com o Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde (CONASEMS), no último dia 26 de maio.


A iniciativa, que faz parte da ação especial em celebração ao Dia Mundial sem Tabaco (31 de maio), teve como objetivo fortalecer o processo de trabalho e capacitar as equipes que atuam nos ambientes de cuidado da atenção primária.


O tabagismo é o tema mais importante da atenção primária, pois é um fator de risco que poderia não existir e que afeta mais de 15% das populações em algumas regiões. Dentro deste contexto, levar conhecimento e informação para a ponta, ou seja, as equipes de atenção primária, saúde da família e todo grupo que é responsável pela assistência dos mais de 200 milhões de brasileiros, é de grande importância.


Moderado por José Francisco Kerr Saraiva, diretor de Promoção da Saúde e Cardiologia da SBC (Funcor) e por Antonio Carlos Chagas, presidente do Departamento de Aterosclerose da SBC, o evento contou com a participação da coordenadora de Ações Relativas ao Tabagismo da SBC, Jaqueline Scholz, que trouxe um panorama dos avanços no tratamento desta doença e também alertou a importância de combater o avanço do uso de cannabis, cigarros eletrônicos, narguilés e outras substâncias ilícitas.


Segundo a médica, atualmente a “conta” das mortes por doenças cardiovasculares e arterioscleróticas não pode ir somente para o uso do tabaco. Hoje já se observa e analisa com mais facilidade esse tema, pois já é possível separar quem é usuário de cannabis e de cigarro, por exemplo.


“Existe o conceito equivocado de que a cannabis é inofensiva, por vir da natureza, mas até aí o tabaco também é. A maconha pode ter efeito terapêutico, mas nem por isso, pode ser usada indiscriminadamente. Temos no nosso organismo a função endógena do canabidiol, que proporciona um equilíbrio de atividades benéficas. Quando entra o sistema exógeno, THC e canabidiol, causam outros efeitos, que estão associados a riscos de arritmia, infarto, etc.”.


Como exemplo, Jaqueline citou os Estados Unidos, instituições renomadas de pesquisas como a American College Society e American Heart Association já têm demonstrado essa preocupação após a liberação tanto para uso terapêutico/medicinal, como recreativo. Já é possível observar um aumento da incidência de doenças cardiovasculares, especialmente infarto e AVC, e do número de emergências em jovens de 30 a 40 anos, na medida que esse aumento de consumo vem se estabelecendo.


Hoje, já são cerca de 43 milhões de usuários de cannabis, nos EUA, em todas as suas formas e isso tem onerado o sistema de saúde do país. Além do crescimento do número de usuários, vemos uma maconha cada vez mais “turbinada”. A maconha que era consumida na década de 1960 tinha de THC de 3%, agora nas substâncias mais vendidas hoje em dia esse índice varia de 12% a 15% e quanto maior a dosagem de THC, maior o efeito cardiovascular.


No Brasil, em amostragens realizadas pelos órgãos de saúde, o uso de cigarros eletrônicos, mesmo que não regularizados, já aparece como uma alternativa para os jovens. No caso da cannabis, na opinião de Jaqueline, antes da liberação, é preciso pensar no impacto na saúde pública e a pressão no sistema que isso trará. Já o uso medicinal, deve ter outra avaliação, pois nesse caso o medicamento é prescrito pelo médico, com segurança e clareza dos riscos e benefícios.


Para as equipes de assistência primária, a mudança do cenário e o crescimento de uso, devem ser fatores a serem considerados como um ponto de atenção que cria a necessidade de incluir na anamnese feita durante o atendimento aos pacientes, em especial de 30 a 40 anos, esse tipo de informação.


O envolvimento dos profissionais de saúde mental também é importante e a inclusão de perguntas específicas sobre depressão, ansiedade, etc., levando em consideração que as pessoas buscam nas drogas um equilíbrio para o sofrimento humano. Assim, como a avaliação da saúde bucal. Antes bastava perguntar sobre o uso de cigarros e álcool. “Hoje é bastante importante para o contexto geral questionar sobre todas as possíveis substâncias, em especial, as psicoativas, que o paciente faz uso”.


Ainda em relação a tratamento, Jaqueline dividiu com a audiência uma nova técnica desenvolvida por ela, que está quebrando paradigmas, trazendo excelentes resultados de recuperação e pode ser incorporada nas práticas do SUS e nos programas de cessação do tabagismo. Em uma comparação entre o modelo tradicional e o uso “técnica do castigo”, como é chamada, chega a ser de 70% em 12 semanas, média bastante superior ao que convencionalmente é utilizado.


Ao contrário do que é feito na maioria dos casos, o fumante não marca uma data para parar de fumar, mas fuma de uma forma diferente. Ele tem o aval para fumar quando quiser, mas de maneira desassociada às atividades que normalmente acompanham o ato (café, dirigir, ver televisão, ir ao banheiro), desde que em lugares sem conforto (virado para uma parede, em pé).


“A ideia não é punir o paciente, mas fazer com que ele perceba o efeito da medicação. É como se você dissesse tudo o que tem que fazer, mas na hora de fumar, você se isole. A técnica é realmente um divisor de águas, pois faz com o indivíduo fume menos”.


Para aumentar a efetividade dos programas eles devem ser pautados em um tripé. A adoção da técnica do castigo, que engloba o âmbito comportamental, deve ser o primeiro passo do tratamento. Depois deve ser combinada com a prescrição de medicamentos que controlem o humor e as reações emocionais, que é a parte da saúde mental, e, paralelo, a medicação que trata a abstinência da nicotina.


A necessidade incorporar o uso de um aparelho simples, chamado monoxímetro, que mensura a quantidade de monóxido de carbono e permite acompanhar se o paciente está realmente reduzindo o consumo de tabaco, também foi apontado com uma medida importante e eficiente.


O acompanhamento deve ser contínuo, recaídas de até três meses estão relacionadas à abstinência, depois desse período a questão é mais relacionada à saúde mental. O ganho de peso é outro sinal de que a pessoa não está bem e pode ter uma recaída - está compensando na comida a sua ansiedade, depressão, angústia. A pessoa tem que estar bem adaptada e não suportando a interrupção do uso do cigarro.


“Esse tipo de tratamento é uma forma de separar, apoiar e incentivar quem realmente quer parar de fumar. Medicação gratuita, por exemplo, em um primeiro olhar parece algo sensacional, mas acaba sendo mais um fator para que a pessoa abandone o tratamento. Tratar fumantes é um desafio, mas é gratificante quando vemos a taxa de sucesso. Parar de fumar também não é fácil, daí a importância de ter um braço amigo e técnicas que facilitam este processo. As pessoas querem parar de fumar, mas não sabem como”, finaliza Jaqueline.

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