Mulheres na cardiologia: importância e representatividade

Em alusão ao Dia Internacional das Mulheres e Meninas nas Ciências, 11 de fevereiro, SBC reconhece necessidade de encorajar e formar lideranças femininas


Em 2015, a Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) aprovou a data 11 de fevereiro como o Dia Internacional das Mulheres e Meninas nas Ciências, que vem sendo comemorado desde 2016 visando aumentar a conscientização sobre a questão da excelência das mulheres na ciência e lembrar a comunidade internacional de que a ciência e a igualdade de gênero devem avançar lado a lado, de modo a enfrentar os principais desafios mundiais e alcançar todos os objetivos e metas da Agenda 2030.


Dados da própria ONU e da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) apontam que as mulheres representam menos de 30% dos pesquisadores no mundo todo e demonstram como ainda persistem as barreiras e a baixa representatividade para mulheres e meninas, sobretudo em áreas como ciências, tecnologia, engenharia e matemática.


Segundo a Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade (SBMFC), as mulheres foram excluídas da educação formal por muitas décadas, sob justificativas pseudobiológicas, relacionando o corpo feminino a menor capacidade intelectual e cognitiva. Até hoje, a maior carga de serviços domésticos e cuidados familiares deixa as mulheres em desvantagem no meio acadêmico, gerando disparidades não só no desenvolvimento de estudos e na publicação de artigos, mas também na representatividade entre pesquisadores, a qual é crucial para uma discussão mais complexa dos assuntos e para a diversidade dos temas escolhidos para estudo.


No minieditorial “Perfil dos Cardiologistas Brasileiros: Um Olhar sobre Liderança Feminina na Cardiologia e sobre o Estresse — Desafios para a Próxima Década”, publicado pelo ABC Cardiol (Arquivos Brasileiros de Cardiologia), em 2019, um dos principais achados foi a diferença salarial entre os gêneros feminino e masculino. Nas faixas de renda mais elevadas, foi verificada maior proporção de homens (66,5% dos homens relataram ganhar mais de 20 mil reais vs. 31,2% das mulheres), mesmo após ajuste para horas de trabalho e faixa etária.


O artigo traz como um possível fator para essa diferença salarial a maior proporção de homens atuando em setor privado (14% das mulheres vs. 23,9% dos homens), enquanto a proporção de mulheres no setor público e no meio acadêmico foi maior (53% das mulheres vs. 44% dos homens), áreas com menores remunerações quando comparadas ao setor privado.


“Em um mundo moderno e cada vez mais igualitário, é de grande relevância que se discutam os possíveis fatores que levam à discrepância salarial entre os gêneros e à baixa adesão das mulheres na cardiologia. Ações de conscientização e organizações de saúde e sociedades médicas que atuem reduzindo o sexismo, encorajando a participação de mulheres na cardiologia e a formação de lideranças femininas são fundamentais para alterar esse cenário”, afirma a publicação.


Durante o I Simpósio Internacional de Doenças Cardiovasculares na Mulher, promovido pelo Departamento de Cardiologia da Mulher (DCM) da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), em outubro de 2021, a cardiologista americana e professora emérita da Emory University School of Medicine em Atlanta, nos Estados Unidos, considerada uma lenda viva, Nanette Wenger, disse que existe um desafio global de aumentar a diversidade e a inclusão na comunidade cardiovascular para proporcionar oportunidades de liderança às mulheres. Segundo ela, os quatro grandes passos para o progresso são: investigar, educar, defender e legislar. “Esse tem de ser um mantra para as mulheres em cardiologia.”


Como dicas para uma jovem médica se tornar uma grande profissional, ela disse que o mais importante é se valorizar, ser inclusiva, mostrar liderança e aprender a se comunicar com detalhes. “Também é fundamental garantir o equilíbrio na sua vida e trabalho. Somos privilegiadas, e com isso temos a responsabilidade de devolver isso para a comunidade, às universidades e às sociedades profissionais, o que é um grande desafio”, destacou Nanette.


Em entrevista ao jornalismo da SBC durante o 2º Simpósio Mulheres do Coração, a ex-presidente do American College of Cardiology (ACC), Athena Poppas, defendeu a atuação da mulher na cardiologia. Para ela, as cardiologistas são importantes na liderança de instituições e organizações de saúde.


“Uma força de trabalho, na área cardiovascular, diversificada e inclusiva, representativa dos pacientes em tratamento, é fundamental, pois trabalhamos para transformar os cuidados cardiovasculares e melhorar a saúde do coração. Como tal, as profissionais da cardiologia são necessárias pelas perspectivas e experiências que elas trazem para o tratamento das doenças cardiovasculares; para educar e orientar novos cardiologistas; na pesquisa avançada; e para manter o papel de liderança em suas instituições e organizações, como o ACC e a SBC”, disse Athena.

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