Linha de frente da pandemia também tem levado médicos ao Burnout, inclusive cardiologistas

Síndrome sugere que o profissional se consumiu física e emocionalmente. É uma reação à tensão emocional crônica, por trabalho exaustivo com pessoas


A Organização Mundial da Saúde (OMS) diz que o Burnout é “uma síndrome que resulta de estresse crônico no trabalho que não foi adequadamente gerenciado” e que se caracteriza por três dimensões: (1) sensação de total falta de energia ou exaustão; (2) distanciamento mental, sentimentos negativos e ceticismo com relação ao trabalho; e (3) queda de eficácia profissional. Entre os sintomas mais comuns estão fadiga, perda de interesse por atividades que antes geravam prazer, alterações no sono, irritabilidade e aumento no consumo de álcool e outras substâncias. O esgotamento causado pela pandemia de Covid-19 tem levado muitos médicos a desenvolverem a síndrome, inclusive cardiologistas.


“Muitas pessoas pensam que Burnout é depressão, mas esta é uma condição muito complexa que reúne três tipos de sintomas: emocionais – tristeza, choro fácil, perda de interesse, irritabilidade, sentimento de culpa, ideação suicida; físicos – falta de energia, alterações no apetite, distúrbios do sono, dores, dificuldade de concentração, alteração da psicomotricidade, e funcionais – perda de produtividade, lentidão, menor capacidade de interação social, prejuízo relacional, isolamento. Todos eles prejudicando a libido. É necessário um conjunto de sintomas para fazer o diagnóstico da depressão”, explicou a psiquiatra, professora da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) e diretora da Associação Médica Brasileira (AMB), Carmita Abdo, durante webinar promovido pela Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC).


Segundo Carmita, a depressão tem na mulher a sua pessoa preferencial; as casadas têm maior incidência que as solteiras. Nos homens ocorre o contrário: quando se casam se protegem da depressão. Na mulher, a doença está ligada a níveis de estrógenos e no sexo masculino quando ele começa a envelhecer. Na população geral, as mulheres vivem cerca de dez anos mais que os homens e as mulheres médicas vivem dez anos a menos que os médicos. Em países desenvolvidos, médicos, homens ou mulheres, têm maior incidência que a população geral seja para doenças cardiovasculares, leucemia, cirrose e suicídio.


“O maior risco de problemas emocionais, físicos e conflitos de relacionamento acontece entre os médicos. 40% das residentes e 27% dos residentes e estudantes de medicina apresentam sintomas acentuados de ansiedade e depressão; a dependência de drogas é de 30 a 100 vezes maior e a vida média menor do que outros grupos socioeconômicos semelhantes”, disse Carmita.


A causas previsíveis não evitáveis para o estresse médico são contato contínuo com a dor, o sofrimento e a morte; o receio constante de cometer erros; a pressão por escassez de tempo, necessidades financeiras ou política institucional; se o parceiro também for médico, ocorre o dobro. Mas há também causas não previsíveis e não evitáveis, como o abuso emocional durante a residência; a necessidade de decisões importantes sob circunstâncias urgentes; dificuldade em deixar de lado o trabalho no fim do dia; ausência de autonomia em decidir como exercer a medicina, e a frustração com a carreira e as vezes com o casamento.


São causas potencialmente evitáveis ambição e materialismo, competitividade, recusa em relaxar/aproveitar o dia, necessidade de controlar, hostilidade contínua e atividade desenfreada.


“O Burnout, por definição, é queima completa, sugerindo que o profissional portador dessa síndrome se consumiu física e emocionalmente. É uma reação à tensão emocional crônica, por trabalho exaustivo com pessoas. Três dimensões vão identificar o Burnout: a exaustão emocional, a despersonificação (distanciamento/indiferença) e a menor realização profissional, caracterizada pela sensação de incompetência e incapacidade de interagir. Os sintomas podem ser físicos, psíquicos, comportamentais e profissionais”, alertou a psiquiatra.


O maior risco de desenvolver a síndrome está entre aqueles que vivem para o trabalho, possuem níveis de exigência muito altos e buscam o perfeccionismo. Pode-se dizer que está relacionada a profissionais que impactam mais diretamente a vida das pessoas – médicos, enfermeiros, psicólogos, professores, jornalistas, por exemplo.


De acordo com Carmita, quem tem Burnout pode ter também depressão e ansiedade, mas as duas últimas são patologias clínicas reativas ao estresse e o Burnout é um tipo de síndrome que é uma consequência de um modelo/estilo de vida estressante no trabalho.


A Associação Médica Americana (American Medical Association) recomenda algumas atividades para combater o Burnout, como planejar, delegar, melhorar as relações na equipe, mobilizar a administração, tempo para vida pessoal e celebrar as vitórias.


“Previne-se o Burnout não estando conectado ao trabalho 24 horas por dia, dando atenção aos sinais de alerta do corpo, planejando também as horas de descanso, não utilizando de rotina de medicamentos para dormir, incluindo intervalos regulares durante o trabalho, apoiando-se em sistema de suporte como família e amigos. A falta de suporte social faz tanto mal quanto o tabagismo”, completou Carmita.


O webinar “O médico e seus novos desafios: Burnout, Perdas, Espiritualidade, Carreira e Mídia”, foi promovido pela SBC e teve participação de Carmita Abdo; do psiquiatra, psicanalista e membro da International Psychoanalytical Association, Sergio Kehdy; do diretor do Centro Internacional de Pesquisa do Hospital Alemão Oswaldo Cruz e professor Livre-Docente, do Departamento de CardioPneumologia da USP, Álvaro Avezum; e do professor da Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais, governador - ACC Capítulo Brazil e ex-presidente SBC, Marcus Bolívar Malachias.

Assista na íntegra AQUI.

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