Evento destacou a importância da representatividade feminina na comunidade médica

O I Simpósio Internacional de Doenças Cardiovasculares na Mulher reuniu mais de mil pessoas em um ambiente virtual, no dia 30 de outubro


“As mulheres são o sexo Frágil ou elas são o sexo Singular?” Este foi o questionamento que norteou as palestras do I Simpósio Internacional de Doenças Cardiovasculares na Mulher, realizado pelo Departamento de Cardiologia da Mulher (DCM) da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), no dia 30 de outubro. O subtema desta primeira edição foi escolhido por ser provocativo no sentido de enfatizar as dificuldades que as mulheres enfrentam, o quanto elas são subjugadas quanto à estratificação de risco cardiovascular, nos pronto-atendimentos, o quanto o seu atendimento é postergado frente a uma emergência clínica-cardiológica.


Fez parte do programa conferências, mesas-redondas, apresentação de casos clínicos, baseados em casos vivenciados na prática clínica diária, tanto na área de cardiopatia e gravidez como na área cardiometabólica e da aterosclerose, com participantes nacionais e internacionais.


Na abertura, Celso Amodeo, presidente da SBC, parabenizou a cardiologista Celi Marques Santos, presidente do DCM/SBC, por tornar realidade esta grande iniciativa. “É um orgulho para a sociedade ter o Departamento da Cardiologia da Mulher tão atuante”, ressaltou.


Por sua vez, Celi Marques Santos se revelou feliz em poder mostrar, por meio do evento, o que o departamento tem a oferecer. Ela lembrou que, há 46 anos, quando da colocação da pedra fundamental do Instituto Dante Pazzanese, foi construído sob coordenação do professor Januário de Andrade o primeiro grupo multiprofissional para atendimento a gestantes portadoras de cardiopatia. “Isso aconteceu justamente em outubro de 1975. Então hoje o departamento está em festa e presta homenagem ao prof. Januário”, disse.


Segundo a presidente do DCM/SBC, as mulheres precisam de intervenção e informações específicas sobre suas particularidades, principalmente em relação aos fatores de risco cardiovascular, assim como as diferenças biológicas, fisiopatológicas e sociais existentes entre os sexos. A maioria dos grandes ensaios clínicos que abordam as doenças cardiovasculares não é conduzida com um quantitativo suficiente de mulheres para gerar evidências robustas.


Também participou da abertura Andrea Brandão, diretora de Departamentos da SBC, salientando que a realização do simpósio concretiza a iniciativa da atual gestão de aproximar os departamentos para que possam se ajudar, dar suporte e, realizar eventos cada vez mais sólidos e com melhores resultados. “O DCM fez história nos últimos dois anos, conquistando visibilidade e crescimento, que se tornarão contínuos nas próximas gestões.”


Alexandre J. Gomes de Lucena, diretor-científico do DCM/SBC, lembrou também a produção científica durante esta gestão. “Foram publicados dois posicionamentos: um sobre gravidez e planejamento familiar na mulher portadora de cardiopatia e outro sobre Covid-19 e gravidez em mulheres cardiopatas. Finalizamos com este simpósio, mas não paramos por aqui. Mesmo trocando a diretoria, somos um grupo muito coeso, sempre unido para levar o melhor conhecimento a todos.”


Conhecendo as mulheres

Glaucia Moraes de Oliveira, coordenadora de Acompanhamento da Gestão e Controle Interno da SBC, reforçou que a principal causa de mortes de mulheres no mundo são as doenças cardiovasculares e que é necessário mudar esse cenário. “Ao longo do tempo, as DCV vão se modificando, mas o acidente vascular encefálico sempre acomete as mulheres. Precisamos dar acesso para que elas sejam tratadas”, disse.


No caso de má formação do aparelho circulatório, tanto homens quanto mulheres morrem sem diagnóstico no Brasil. No entanto, pesquisa mostra que a mortalidade acontece mesmo quando é feito o diagnóstico, porque não há tratamento disponível. Isso está relacionado ao IDHM – Índice de Desenvolvimento Humano Municipal.


Outros dados mostram que as doenças hipertensivas são bastante prevalentes em crianças e que a obesidade vem crescendo muito em ambos os sexos. Uma iniciativa citada no evento para enfrentar o problema é o programa “SBC vai à Escola”, que busca levar às crianças o conhecimento sobre as doenças cardiovasculares para que reproduzam em casa.


Mortalidade feminina

Sobre as doenças cardiovasculares na gravidez, poucos países têm uma mortalidade materna tão alta quanto o Brasil em comparação a outras nações da América Latina.


Segundo a professora livre docente da Faculdade de Medicina da USP e diretora administrativa do DCM/SBC, Walkiria Samuel Avila, a primeira medida que deve ser tomada é compreender porque as mulheres morrem e qual a causa das mortes. A mortalidade feminina está três vezes maior do que níveis aceitáveis da Organização Mundial de Saúde (OMS).


“Nós estamos com 60 mortes maternas em 100 nascidos vivos. E a OMS aceita até 10, 20 mortes, então é muito alto. Entre as causas, tem aquelas obstétricas e as não obstétricas – onde estão as cardiopatias. A doença cardíaca é a que mais mata no mundo. No Brasil, a hipertensão também tem uma grande parcela de culpa na morte materna. Nos países desenvolvidos, a pressão alta já não tem tanto problema, quer dizer, preocupação, porque eles sabem como prevenir, como prever, o que vai acontecer e tratar”, destacou Walkiria.


A professora enfatizou que no Brasil não há prevenção. A mulher sofre de hipertensão, acaba não fazendo um acompanhamento pré-natal adequado e como consequência, morre.


“É muito importante essa atenção sobre as DCVs na mulher grávida, pelo fato da gestação ser uma fase onde se manifestam doenças que podem ter ou não ter diagnóstico, e também algumas evoluções para outras enfermidades, que podem significar alterações e um risco maior para a vida da mulher no futuro, mesmo depois de 20, 30 anos da gestação”, explicou a cardiologista intervencionista e coordenadora do grupo MINT - Mulheres Intervencionistas, Viviana Lemke.


Segundo Viviana, a mulher tem diferenças estruturais em relação ao homem. Do ponto de vista cardiovascular, essas diferenças são muito significativas. Normalmente, quando a mulher infarta, isso se dá por diversos fatores de risco: obesidade, tabagismo, diabetes. Porém, se a mulher jovem infarta, ele será muito mais grave que em um homem na mesma idade. Isso acontece por várias alterações, estruturais e anatômicas, mas também hormonais.


Educação e valorização

Uma das apresentações mais aguardadas do Simpósio foi de Nanette Wenger, cardiologista americana e professora emérita da Emory University School of Medicine em Atlanta, Geórgia. Considerada uma lenda viva, Nanette começou sua apresentação mostrando o trabalho feito nos Estados Unidos para diminuição da mortalidade em mulheres através da educação.


A campanha “Heart Truth” surgiu em 2004, patrocinada nos Estados Unidos pelo National Heart, Lung and Blood Institute, com grandes resultados. Infelizmente, uma pesquisa em 2019 mostrou que a conscientização sobre os fatores de risco diminuiu 44% predominantemente entre negros, hispânicos e mulheres jovens, associada com um crescimento da mortalidade de mulheres jovens por doenças cardiovasculares.


Isso mostra, segundo Nanette, que o avanço nas últimas décadas foi apagado. “Os desafios dos Estados Unidos e do Brasil são comparáveis. Precisamos de educação em relação aos sintomas e ao tratamento das doenças cardiovasculares, começando cedo, não aos 40, mas aos 30.”


Também é importante contar com a colaboração dos ginecologistas e obstetras nesta educação. Nos Estados Unidos, por exemplo, 1 em 10 mulheres grávidas têm alto risco cardiovascular. “Precisamos de educação pública, triagem, ajuda dos ginecologistas e obstetras e demais profissionais de saúde.”


Nanette também falou de estudos e assuntos regulatórios. Ela citou uma pesquisa feita em 2015 nos Estados Unidos mostrando a importância de identificar o sexo dos pacientes ao examinar células e tecidos, além da necessidade de incluir mulheres e minorias em ensaios clínicos, com resultados segregados. “A FDA emitiu uma recomendação para que a população representativa seja incluída, mas não houve nenhuma provisão para colocar isso em prática.”


Em suas conclusões, a médica disse que existe um desafio global de aumentar a diversidade e a inclusão na comunidade cardiovascular, para proporcionar oportunidades de liderança às mulheres. Segundo Nanette, os quatro grandes passos para o progresso são: investigar, educar, defender e legislar. “Esse tem de ser um mantra para as mulheres em cardiologia.”


Como dicas para uma jovem médica se tornar uma grande profissional, ela disse que o mais importante é se valorizar, ser inclusiva, mostrar liderança e aprender a se comunicar com detalhes. “Também é fundamental garantir o equilíbrio na sua vida e trabalho. Somos privilegiadas, e com isso temos a responsabilidade de devolver isso para a comunidade, às universidades e às sociedades profissionais, o que é um grande desafio”, destacou Nanette.


Reunindo mais de mil participantes, o I Simpósio Internacional de Doenças Cardiovasculares na Mulher também contou com palestras de Joan Briller, Roxana Mehran, Lourdes Campos Alcàntara e Peter Libby, entre outros.


Ao final, o fundador do Departamento de Cardiologia da Mulher, Januário de Andrade, foi homenageado através de seu filho, Felipe de Andrade. Maria Elizabeth Navegantes Caetano Costa e Maria Hebe Dantas da Nóbrega também foram reconhecidas por sua representatividade no DCM.


“O Simpósio foi construído com muito carinho e dedicação, sendo um sucesso. Tive a oportunidade de coordenar a apresentação do caso clínico de cardiomiopatia periparto, com alto nível de discussão e muito aprendizado. No encerramento, tive a grande emoção de receber homenagem junto com a Hebe e o professor Januário de Andrade. Fiquei muito feliz e agradecida. Não devemos esquecer a importância do DCM frente à saúde cardiovascular da Mulher. Temos sempre que estar trabalhando por seu crescimento e sucesso, estando ou não fazendo parte da diretoria, quer seja no palco ou nos bastidores”, finaliza Maria Elizabeth Navegantes Caetano Costa, membro da comissão organizadora do evento.


Realizado de forma virtual e gratuita, o Simpósio contou com apoio da Novo Nordisk e a Comissão Organizadora foi composta por grandes nomes da cardiologia brasileira: Alexandre Jorge Gomes De Lucena (PE); Cláudia Maria Vilas Freire (MG); Elizabeth Regina Giunco Alexandre (SP); Glaucia Maria Moraes de Oliveira (RJ); Orlando Otávio De Medeiros (PE); Maria Alayde Mendonça Rivera (AL); Marildes Luiza de Castro (MG); Maria Cristina Costa de Almeida (MG); Maria Elizabeth Navegantes Caetano Costa (PA); Regina Coeli Marques de Carvalho (CE); Sheyla Cristina Tonheiro Ferro da Silva (SE); Thais De Carvalho Vieira (SE) e Walkíria Samuel Ávila (SP).

Palestrantes do I Simpósio Internacional de Doenças Cardiovasculares na Mulher

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