Estudo mostra como desigualdade social influencia a qualidade da saúde das pessoas

Análise apresentada no American Heart Association Scientific Sessions mostra essa realidade – potencializada durante a pandemia –, que também se encontra no Brasil, sob influência de quatro aspectos

Dados de várias regiões do mundo já revelaram esta triste realidade: que pessoas em situação de vulnerabilidade social têm mais risco de contrair doenças e morrer por conta disso. Durante a pandemia, esse fato foi mais uma vez confirmado.

Segundo pesquisa preliminar apresentada no 2021 American Heart Association Scientific Sessions, pacientes hospitalizados por covid-19 nos Estados Unidos que vivem em situações de pobreza devido à baixa renda registraram probabilidade 28% maior de ter um ataque cardíaco, derrame ou outro evento cardiovascular. Os pesquisadores revelaram ainda que pessoas hospitalizadas por covid-19 que vivem nessas áreas tinham 37% mais chances de morrer no hospital do que aquelas que residiam em comunidades menos vulneráveis.

“Pensamos que as descobertas seriam parcialmente explicadas pelas condições de saúde preexistentes ou por quão doentes os pacientes estavam quando foram internados no hospital, mas não foi o caso”, disse o pesquisador Dr. Shabatun Islam em um comunicado à imprensa. Islam é bolsista de cardiologia na Emory University School of Medicine, em Atlanta, nos Estados Unidos.

Pesquisas anteriores mostraram que pessoas de diversos grupos raciais e étnicos, incluindo adultos negros e latinos, correm maior risco de adoecer e morrer de covid-19. Outros estudos mostraram que aqueles que vivem em bairros definidos como socialmente vulneráveis ​​também foram afetados desproporcionalmente pela covid-19 grave. Mas, embora a raça possa ser um fator, o novo estudo descobriu que o local onde uma pessoa mora pode ter um papel importante na forma como ela é afetada pelo vírus.

Em matéria publicada no site da AHA, Michelle A. Albert, presidente da entidade, disse que não ficou surpresa com as descobertas. Para ela, é essencial entender por que, como e quais fatores sociais são mais importantes. “Lidar com as disparidades de saúde exigirá uma abordagem multifacetada de soluções sociais, como construir relações com a comunidade, aumentar a diversidade na força de trabalho da saúde e fortalecer o financiamento de pesquisas e cuidados clínicos com foco em fatores sociais e seu impacto na saúde. Essas soluções exigirão esforços sustentados ao longo do tempo; há muito trabalho a ser feito”, ressaltou.

Brasil

Esses resultados podem ser comparados ao que se viu recentemente no Brasil. Basta lembrar da situação em Manaus durante a pandemia: no Amazonas, somente a capital possui estrutura necessária para atender os pacientes com covid-19, assim, os moradores de outras regiões foram lá se tratar, colapsando o sistema, culminando na falta de oxigênio nos hospitais. O Amazonas, maior estado do país em extensão territorial, chegou a registrar a maior taxa de mortalidade por covid-19 no Brasil, conforme a plataforma Monitora Covid-19, da Fiocruz.

Já em São Paulo, município mais populoso do Brasil, foi realizada uma pesquisa, entre março e setembro de 2020, na época da primeira onda de covid-19, confirmando que os locais de baixa renda são os que mais sofrem com a pandemia. A taxa de mortalidade chega a ser três vezes maior em comparação a bairros de renda alta.

As quatro pesquisadoras da área da saúde pública e demografia envolvidas no estudo revelaram que, nos locais onde mais de 10% da população tem renda per capita abaixo de um quarto do salário mínimo, morreram 70% mais pessoas de covid-19 que nas regiões mais ricas. Além disso, é nas regiões carentes que estão os grupos mais expostos ao risco de contrair o coronavírus.

No Rio de Janeiro, as 25 comunidades monitoradas pelo Voz das Comunidades chegaram a apresentar maior número de óbitos por covid-19 que outros estados do Brasil, inclusive maior que em outros países, segundo matéria publicada em agosto de 2020.

No site Wiki Favelas há uma página organizada pela equipe do Dicionário de Favelas Marielle Franco que apresenta um compilado de textos sobre os efeitos do novo coronavírus nas favelas do Brasil, incluindo artigos de opinião, discussões acadêmicas, pesquisas, relatórios, dados e entrevistas.

“O coronavírus atinge a população desigualmente. Existem aqueles que, ainda bem, conseguem ficar no conforto do seu lar, com a geladeira cheia, fazendo home office. No entanto, a pesquisa deixa claro que existem milhões de brasileiros, autônomos, e com a geladeira vazia”, avaliou Celso Athayd, fundador da Central Única das Favelas – CUFA e do Data Favela e coordenador do movimento #FavelaContraOVirus.

Quatro fatores

Para José Francisco Kerr Saraiva, diretor de Promoção de Saúde Cardiovascular da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), esse é um problema muito sério que envolve quatro fatores. O primeiro é que, em locais onde há grande adensamento populacional, é difícil se proteger do contágio. “Se a pessoa é pobre e mora com mais quatro ou cinco pessoas no mesmo cômodo, um doente contagia todos os outros”, explicou.

O segundo ponto envolve a questão cultural: o conhecimento é menor sobre medidas preventivas, como uso de máscaras e distanciamento social. Em terceiro, relacionado às doenças cardiovasculares, Saraiva diz que o padrão de risco é maior nas pessoas de classes menos favorecidas. “Excesso de peso, tabagismo e hipertensão, por exemplo, são mais comuns nelas do que em pessoas de classes mais altas.”

Vale lembrar que as doenças cardíacas estão entre as grandes complicações da covid-19. O risco de agravamento pela doença atinge pacientes crônicos que já tiveram alguma doença cardíaca, como infarto do miocárdio, insuficiência cardíaca, hipertensão arterial severa ou arritmias complexas. Além disso, os sintomas de um infarto agudo do miocárdio ou de descompensação de insuficiência cardíaca podem estar mascarados pelos sintomas da covid-19.


O quarto ponto é qualidade da assistência. Além do maior risco, as pessoas em situações de maior vulnerabilidade sofrem com a baixa qualidade na assistência à saúde. “Alguém que se protege, que pode fazer o distanciamento social, que usa máscara o tempo todo, que faz exercício, que não fuma, que tem o peso adequado e uma dieta saudável e, no caso de alguma complicação de saúde, ainda tem acesso a um bom hospital, tem menos chances de morrer”, resumiu Saraiva.


Embora seja grave, esse problema não é nenhuma novidade. Sua solução exige integração entre governo, empresas, profissionais da saúde, comunidade e sociedade em geral. É preciso, também, investir em pesquisas, na obtenção e na análise de dados, para que a atuação seja certeira e traga resultados. Não é nada simples, nem rápido. Mas é preciso chamar a atenção para essas questões e começar a atuar.

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