Especialista da SBC explica a importância do tratamento da Hipertensão
Especialista da SBC explica a importância do tratamento da Hipertensão

25/04/2023, 18:17 • Atualizado em 21/12/2023, 17:30

O Conselheiro Administrativo, Weimar Barroso, é especialista no tema, tendo sido presidente do Departamento de Hipertensão Arterial

O Dia Nacional de Prevenção e Combate à Hipertensão Arterial tem se convertido, de forma recorrente, em uma oportunidade mais do que especial para conscientização sobre este que é um dos fatores de risco bem importantes para as doenças cardiovasculares.

Para aproveitarmos a data, publicaremos abaixo uma entrevista com Weimar Barroso, Conselheiro Administrativo da Sociedade Brasileira de Cardiologia, destacado especialista no tema, tendo sido presidente do Departamento de Hipertensão Arterial da sociedade no biênio de 2012/2013. Confira! 01) O que é a pressão arterial? Quando ela é considerada alta? A hipertensão arterial, que é a principal causa de morte em todo o mundo, segundo dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), acontece quando a pressão do sangue no interior dos nossos vasos, no caso das artérias, atinge valores considerados danosos à saúde.

Por convenção, esse valor, hoje, é o da pressão arterial medida no braço do paciente (a pressão arterial periférica), maior ou igual a 140 para a pressão sistólica, que é aquele número máximo, e, maior ou igual a 90 para a pressão diastólica, que é aquele número mínimo.

Existe, além do diagnóstico de hipertensão arterial baseado nesses números, o que nós chamamos de pré-hipertensão arterial, que é quando os valores estão no intermédio entre o que é ótimo, que é a pressão normal, uma pressão adequada, já em transição para valores mais altos. Então, pré-hipertensão é um termo que traduz justamente essa transição da normalidade para a anormalidade, e também, por convenção, ela é definida quando nós temos um valor de pressão arterial sistólica maior ou igual a 130, e um valor de pressão arterial diastólica maior ou igual a 85. Então, hipertensão, pressão maior ou igual a 140 por 90, e pré-hipertensão maior ou igual a 130 por 85, até esse limite dos 140 por 90.

Em linhas gerais, se a gente pegar a população adulta, nós temos uma distribuição na população de mais ou menos um terço de indivíduos hipertensos, um terço de indivíduos pré-hipertensos, e um terço de indivíduos com a pressão considerada normal. Então, veja que nós temos uma grande prevalência de pessoas com hipertensão arterial na população adulta. De cada três adultos - isso é um dado mundial e se repete no nosso país - um é portador de hipertensão arterial.

02) Normalmente, quais são as possíveis causas para esse quadro?

Em geral, os fatores causadores de elevação da pressão arterial são divididos em dois tópicos principais. Aqueles que nós consideramos como não modificáveis, por exemplo, os fatores genéticos, já que existe uma herança genética que aumenta a chance de desenvolvimento da hipertensão arterial, e, o fator idade, à medida que nós envelhecemos, a chance de desenvolver hipertensão aumenta.

Já dentre os fatores modificáveis, nós temos uma série de fatores e é importante elencar todos eles, porque são justamente esses os fatores sobre os quais nós atuamos quando nós vamos orientar um paciente que já tem hipertensão ou orientar um paciente que não tenha, mas como hábitos que podem prevenir ou reduzir o risco de desenvolvimento da hipertensão arterial.

Então são esses fatores não modificáveis que eu vou citar a seguir. O primeiro deles se refere aos hábitos alimentares inadequados. Então, alimentação saudável é fundamental. No caso da hipertensão arterial, o grande vilão é o sal, e o sódio. O excesso de sal na alimentação aumenta o risco de elevação da pressão arterial. Em geral, o brasileiro consome duas a três vezes mais quantidade de sal do que o que é recomendado. Além disso, na alimentação, outros hábitos inadequados passam por o consumo excessivo, quantidade aumentada de alimentos, então, ingestão calórica excessiva. Excesso de gorduras na alimentação.

Dessa forma, a gente termina orientando essas questões todas, de hábitos que passam por uma quantidade de sódio, de proteínas animais, de gorduras e de carboidratos em quantidades adequadas. Então esse é um fator.

O outro fator é o peso. O sobrepeso ou a obesidade aumentam a chance de um indivíduo apresentar elevação na pressão arterial e apresentar hipertensão arterial. O outro fator é o sedentarismo, que também aumenta o risco de desenvolvimento de hipertensão arterial e uma série de outros fatores, como, por exemplo, o estresse, privação do sono e assim por diante. Mas esses são os principais fatores.

A gente sempre trata de forma muito particular o tabagismo, porque o cigarro é um hábito totalmente inadequado. Ele aumenta o risco de uma série de doenças cardiovasculares, além do risco de câncer, problemas gástricos e digestivos. 03) Quais os prejuízos da pressão alta para o organismo?

A hipertensão arterial é a doença que mais mata em todo o mundo. Então, diferente do que se pensa, e se pensa de uma forma equivocada, ter a pressão alta é algo que precisa ser cuidado com muita atenção. Porque nós estamos falando da doença que mais mata no mundo. Geralmente, isso acontece porque existe essa falsa ideia de que não há uma gravidade relevante em relação ao aumento da pressão arterial, porque é uma doença que não traz sintomas.

Então, muitas vezes a pessoa não se convence que está doente, porque é uma doença crônica ou degenerativa, ou seja, ela tem que ser tratada para toda a vida. Não existe cura para a doença hipertensiva, existe controle. Muitas vezes, quase sempre, a necessidade do uso de medicamentos, e esse uso é contínuo, é para toda a vida, havendo necessidade de ajustes de doses ou troca de medicamento ao longo do tempo. As principais consequências são relacionadas a doenças cerebrovasculares. 80% dos acidentes vasculares cerebrais acontecem em pessoas hipertensas.

Infarto agudo do miocárdio, metade das pessoas que têm um infarto do miocárdio são hipertensas. Quem é hipertenso e não cuida adequadamente têm um risco alto de desenvolver uma doença que é a insuficiência cardíaca, que é quando o coração dilata. Problemas renais: a principal causa de doença renal crônica, a necessidade de evolução para a diálise, a doença hipertensiva e diabetes são as duas principais causas. Doenças arteriais obstrutivas periféricas, que é quando as nossas artérias vão entupindo e obstruindo e isso vai comprometendo a oxigenação de vários setores do nosso organismo.

04) Por que é importante o paciente com pressão alta sempre buscar ajuda médica? A importância do paciente hipertenso buscar ajuda médica está alinhada com tudo que eu disse antes. Nós estamos falando de uma doença grave, só que as consequências da doença hipertensiva se a gente não cuidar adequadamente, geralmente acontecem em torno de 10 a 15 anos depois. O acidente vascular cerebral, o infarto do miocárdio, doença renal crônica, doença arterial obstrutiva periférica, insuficiência cardíaca são as principais. Então, é por isso que é importante o paciente não somente procurar, mas medir a pressão arterial. Porque já que nós estamos falando de uma doença com poucos ou nenhum sintoma, o diagnóstico passa pela medida da pressão arterial. Sempre que possível nós devemos medir a nossa pressão arterial. Lembrando que de cada três adultos, um é portador de hipertensão arterial e esse risco é maior à medida que a gente vai envelhecendo.

Então, sempre que houver uma medida de pressão arterial, identificado ali um aumento no valor da pressão, é super importante buscar um médico, de preferência um especialista, para que ele possa fazer uma avaliação adequada e confirmar se realmente existe a doença hipertensiva. Isso pode ser feito com as medidas no consultório e também com alguns métodos diagnósticos que permitem várias medidas no dia a dia do paciente, que são a MAPA, que é a monitorização ambulatorial da pressão arterial, e a MRPA, que é a monitorização residencial da pressão arterial. Então, é fundamental o acompanhamento do especialista diante de um quadro de elevação da pressão arterial. 05) Quais os perigos da automedicação nos casos de pressão alta?

A automedicação sempre é um perigo, sempre. Uma das principais causas de internação hospitalar por intoxicação se refere a esse hábito ruim que o brasileiro tem da automedicação e aqui então nem se fala, porque existem vários passos.

Uma vez que a pressão tenha sido identificada como elevada, numa medida, seja ela em alguma consulta médica ou em outra situação, há que se confirmar esse diagnóstico. Após a confirmação do diagnóstico, há que se adotar uma estratégia de tratamento que passa tanto por mudanças de estilo de vida, quanto pelo uso de medicamentos. Existem vários tipos de medicamentos, várias classes de medicamentos que agem em mecanismos diferentes. Muitas vezes a gente usa drogas em combinação.

E para cada perfil de paciente, uma série de características que a gente avalia, alguns medicamentos se adequam melhor. Então, não é simplesmente chegar numa farmácia e pedir um remédio para baixar a pressão, porque essa não é a melhor estratégia. 06) Quais são os tipos de medicamentos que podem ser indicados quando um paciente tem pressão alta? Isso varia conforme a causa?

Existem várias classes de medicamentos antihipertensivos. Nós temos medicamentos que nós consideramos como de primeira linha, que são aquelas classes de medicamentos que reduzem a pressão arterial com pouco ou nenhum efeito colateral e comprovadamente protegem o indivíduo e reduzem o risco de problemas cardiovasculares. E algumas drogas de segunda linha, que não têm tanta evidência científica, mas são drogas mais potentes.

Então, muitas vezes em pacientes com hipertensão, que nós chamamos de resistente ou refratária, que são hipertensões mais difíceis de controlar, há a necessidade, às vezes, de lançar a mão de drogas mais potentes.

Dentre essas todas, nós temos mais de oito classes de drogas antihipertensivas. Em geral, nós utilizamos cinco classes, que são essas consideradas como de primeira linha. Então, tanto usando como monoterapia ou combinando duas, três classes diferentes, a depender, do perfil do paciente, de uma série de avaliações para tentar estabelecer a melhor estratégia.

07) Quando os remédios diuréticos costumam ser utilizados em casos de pressão alta?

A classe dos diuréticos, no caso dos diuréticos tiazídicos, é uma classe específica de diuréticos, ela é muito utilizada no tratamento da doença hipertensiva. Ela está dentre aquelas classes de primeira linha, classes preferenciais para o tratamento da hipertensão arterial. Então ela é usada com muita frequência. 08) Existe alguma contraindicação a eles? Para toda medicação, existe indicação, por isso, existe a necessidade de avaliação de risco do uso daquele medicamento, e também a necessidade de avaliação estratégica, se aquele medicamento é a melhor estratégia, se ele deve ser usado em monoterapia ou em combinação com outras classes de fármacos, a necessidade de avaliar se o tratamento atingiu o objetivo de tratamento, no caso aqui da doença hipertensiva e se o objetivo principal é reduzir a pressão arterial, além de outros objetivos importantes. Então, assim, sempre que se escolhe uma medicação, isso passa por um conhecimento do que está sendo utilizado e também uma clara definição de quais são os objetivos com o uso daquele medicamento. Eu vou dar um exemplo para vocês. Em geral, dados do Sistema Único de Saúde, no Brasil, controla-se em torno de 20% a 30% dos hipertensos, ou seja, de cada 10 hipertensos no nosso país, apenas 2 a 3 estão dentro das metas preconizadas como ideais para o tratamento da doença hipertensiva. Por vários fatores: muitas vezes porque o paciente nem sabe que é hipertenso, muitas vezes porque ele sabe, mas ele não foi orientado adequadamente, ou ele foi orientado e não segue adequadamente essa orientação, ou porque ele abandona o tratamento, ou porque, na realidade, às vezes o acesso ao médico, aos exames complementares, a medicação não é tão adequada quanto se deseja, enfim, são vários fatores que levam a essa taxa de controle bem menor do que se deseja. A SBC publicou , em 2018, o Registro Brasileiro de Hipertensão, que avaliou mais de 3 mil pacientes hipertensos tratados por cardiologistas. As taxas de controle nesse registro foram de 62%. Ter o conhecimento a respeito da doença e a respeito das melhores estratégias a serem empregadas faz diferença no tratamento de qualquer doença, não só da hipertensão arterial.

09) O paciente que toma remédios para hipertensão pode eventualmente receber alta do tratamento? Como isso funciona?

O paciente hipertenso sempre será hipertenso. Ele sempre tem que seguir com os cuidados em relação aos hábitos de vida saudáveis e ao uso de medicamentos quando houver indicação. Talvez a pergunta correta seja: o paciente hipertenso usando o medicamento, eventualmente pode parar de utilizar? É muito raro que isso aconteça e geralmente não. Mas em situações de exceção, a gente observa. Vou dar um exemplo:

Eu comentei que o aumento no peso aumenta o risco de elevação da pressão arterial. Muitas vezes, quando a gente tem reduções expressivas no peso corporal, seja com cirurgias bariátricas ou com próprias mudanças em relação à alimentação e atividade física, existe uma redução muito expressiva também da pressão arterial.

Em alguns casos, essas pessoas passam a controlar a pressão sem a necessidade de seguir usando medicamentos. E a gente suspende o medicamento e segue acompanhando. Porque se em algum momento houver novamente a elevação do peso, a pressão vai subir novamente. Ou com o passar do tempo, com o próprio envelhecimento, com o aumento da idade, mesmo mantendo o peso ideal, pode ser que a pressão volte a subir. Então, não é possível dar alta no sentido de deixar de ter o acompanhamento desses indivíduos.

10) Como a alimentação pode impactar o paciente com pressão alta? Existem alimentos que é bom privilegiar?

O que devemos sempre buscar é um hábito alimentar saudável e geralmente o hábito alimentar saudável passa pela ingestão de uma quantidade maior de alimentos de origem vegetal, diminuindo a quantidade de proteínas animais, reduzindo a quantidade de gorduras, reduzindo a quantidade de carboidratos, que vai nos levar à manutenção do peso também ideal. Então, é todo um conjunto de fatores que vai concorrer para melhorar os valores da pressão arterial. Do ponto de vista do hábito alimentar, um ponto muito importante é a redução na ingestão de sal, de sódio. A redução do uso de sal passa pela redução de alimentos industrializados, porque eles têm uma quantidade grande de sal na sua composição. Essa é uma estratégia muito importante para a orientação de todo o paciente hipertenso.