Entre o estetoscópio, cateter e o ensino
Entre o estetoscópio, cateter e o ensino

20/07/2023, 16:31 • Atualizado em 21/12/2023, 17:30

Professor, especialista em hemodinâmica, cardiologia intervencionista com atuação em grandes momentos da medicina brasileira, conheça a história de Carlos Antônio Mascia Gottschall

“É reconfortante constatar que a cardiologia brasileira, partindo de origens humildes, tenha atingido os mais altos níveis internacionais em todos os campos e contribuído com conhecimentos seminais em setores particularizados”. A frase faz parte do livro Bases Históricas da Cardiologia e Desenvolvimento no Brasil, lançado pela Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) em 2022, e foi escrita pelo professor e cardiologista Carlos Antônio Mascia Gottschall.

Figura ímpar para a cardiologia do Brasil e presente durante a maior parte destes 80 anos de SBC, Gottschall persegue os mesmos quatro objetivos desde que se formou médico: ”ensino, pesquisa, associativismo médico e transferência dos benefícios dessas ações para a comunidade”, ele detalha.

A coordenação da obra, citada no início do texto, é só uma das contribuições do cardiologista com a literatura sobre cardiologia brasileira. E falando nela, Gottschall exalta, mais uma vez, o campo que escolheu para exercer sua profissão: “Podemos dizer que a cardiologia brasileira, tão deficiente na década de 1930, em noventa anos se igualou e mesmo ultrapassou muitos dos mais avançados centros internacionais, refletindo o progresso e o aumento populacional que o Brasil apresentou neste começo de século”. A frase também está presente na obra Bases Históricas da Cardiologia e Desenvolvimento no Brasil.

Em sua trajetória profissional, a SBC sempre esteve presente - direta ou indiretamente, como explica: “Em 1968, com 28 anos, já acumulava títulos que me valeram figurar como cardiologista, talvez o mais jovem do país, na primeira lista de especialistas reconhecidos pela SBC. Em 1972, fui eleito presidente da Sociedade de Cardiologia do Rio Grande do Sul e reeleito por mais dois anos”.

Ambas as conquistas são somente algumas que marcam a vida de Gottschall. Professor na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) desde 1971, implementou o curso de Pós-Graduação na Fundação Universitária de Cardiologia, em que foi coordenador e orientador de dezenas de teses.

Mas sua história vai muito além. O cardiologista é pioneiro em conquistas na área da Hemodinâmica, a qual se refere como “o maior avanço da Cardiologia no século XX, por permitir estudar a fisiologia cardíaca em vivo, fazer diagnóstico fisiopatológico, aplicar e desvendar ação de drogas e a intervenção coronariana”.Desde sua residência na UFRGS praticava Hemodinâmica.

Em 1975, foi um dos profissionais a assinar a ata de fundação do Departamento de Hemodinâmica e Angiocardiografia (DHA) da SBC. Cinco anos depois foi eleito presidente - o primeiro fora do eixo Rio-São Paulo.

Em 1993, o DHA, continuando como departamento da SBC, foi transformado em Sociedade Brasileira de Hemodinâmica e Cardiologia Intervencionista (SBHCI). “Nesta ocasião, presidi a comissão que estabeleceu as primeiras normas para formação e prática na nova especialidade”, o cardiologista relembra.

Ainda sobre a área, compartilha: “Penso que, mantidas as proporções, o cateter representou para a Medicina o que o estetoscópio significou no século XIX, com a vantagem de o cateter oferecer terapêutica”.

Gottschall também possui grandiosa atuação na cardiologia intervencionista - e, claro, boas lembranças: “Depois de um estágio com Richard Myler, na Califórnia, realizei em 1982 a primeira angioplastia coronariana no Rio Grande do Sul e a segunda desobstrução de coronária cronicamente ocluída documentada no mundo”.

A atuação em diferentes frentes da cardiologia é uma marca na carreira do professor.

“A fundação da SBC permitiu reunir e dar força aos médicos dedicados à prática, ao ensino, à prevenção e à pesquisa em todas as áreas componentes da especialidade de Cardiologia. Deve-se à SBC grande parte do desenvolvimento da nossa Cardiologia”, ele diz.

O Título de Especialista em Cardiologia só foi regulamentado em 1964, a partir da concessão do convênio da SBC junto à Associação Médica Brasileira, e distribuído a partir de 1968.

Sobre o futuro da cardiologia, Gottschall compartilha suas previsões: “A doença, em grande parte, é cultura, e avanços tecnológicos propiciam correções e não necessariamente cura. Penso, por isso, que os cardiologistas e a SBC devem continuar cada vez mais investindo em campanhas de esclarecimento e preventivas - focadas nos fatores de risco -, sobre doenças cardiovasculares, em mudanças de estilo de vida das pessoas. Curar, melhorar é bom, mas prevenir é melhor”.

E deixa um recado para futuras gerações de cardiologistas: “Para exercer Medicina e Cardiologia ou qualquer especialidade é necessário amar o que se cultiva. Cumprida essa premissa, estudar, atualizar-se, exercer a profissão com humanismo solidário, jamais colocar a técnica acima da compaixão e sempre praticar senso crítico. Lembrar que antes de cardiologistas ou super especialistas somos médicos, herdeiros de toda a grandeza que essa palavra traz implícita”.