Classificação universal de insuficiência cardíaca padroniza linguagem em torno da síndrome clínica

Assunto foi tema do quinto webinar da série Cuidando do Coração, realizada pela SBC, em parceria com o CONASEMS, que visa promover a educação de equipes de saúde dedicadas à atenção primária sobre prevenção de doenças cardiovasculares


Em março passado, a Sociedade de Insuficiência Cardíaca da América, a Associação de Insuficiência Cardíaca da Sociedade Europeia de Cardiologia e a Sociedade Japonesa de Insuficiência Cardíaca anunciaram uma nova definição e classificação universal de Insuficiência Cardíaca (IC), com o objetivo de padronizar a linguagem e as práticas em torno da doença que atinge 26 milhões de pessoas no mundo, além dos incontáveis casos não diagnosticados. O assunto pautou o quinto webinar da série Cuidando do Coração, realizada pela Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), em parceria com o Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde (CONASEMS), no último dia 21 de julho.


A série Cuidando do Coração visa promover a educação de equipes de saúde dedicadas à atenção primária de municípios brasileiros nos temas relativos à prevenção das doenças cardiovasculares. O episódio sobre IC foi conduzido pelo diretor de Promoção de Saúde Cardiovascular da SBC, José Francisco Kerr Saraiva, e teve apresentações do presidente do Departamento de Insuficiência Cardíaca (DEIC) da SBC, coordenador da Universidade do Coração e professor da Universidade Federal Fluminense (UFF), Evandro Tinoco Mesquita, e do professor adjunto de Clínica Médica e Semiologia da UFF, Antônio José Lagoeiro.


“A IC é um tema que, talvez, seja um dos mais importantes na Atenção Primária. A doença é um denominador comum de todas as mazelas que acontecem com o coração ao longo das décadas. Hipertensão arterial e colesterol quando não controlados elevam o risco de o indivíduo desenvolver IC. O mais importante para os profissionais que atuam na Atenção Básica é buscar reconhecer os sintomas e se aproximar do paciente com IC para ele ser conduzido da melhor maneira ao tratamento adequado”, disse Saraiva.


O presidente do DEIC/SBC reforçou que a IC é uma causa importante de internações e mortes no Brasil e um problema que deve ser diagnosticado na Atenção Básica, sendo fundamental mobilizar os profissionais para conscientização dos pacientes em reconhecer os sintomas para terem acesso ao cuidado apropriado.


Os pacientes com IC são aqueles que tiveram infarto, diabetes, hipertensão e, agora, Covid -19, por isso desenvolveram uma condição manifestada através de sintomas como falta de ar, fadiga e inchaço dos pés e pernas. A doença tem grande potencial de reduzir a expectativa de vida. Após o diagnóstico, metade dos pacientes podem morrer em até cinco anos. Além disso, entre aqueles que apresentam sintomas mais graves como acúmulo de líquidos nos pulmões, pernas e barriga devido à dificuldade do coração em bombear o sangue, metade pode falecer após um ano da detecção da patologia. Por isso, a importância da conscientização sobre o tratamento adequado, que pode reverter esse quadro.


“A Covid-19, assim como as doenças cardiovasculares, não é uma pandemia, é uma sindemia onde as comorbidades como hipertensão, diabetes e obesidade promovem e agravam tais condições. A Atenção Primária é a responsável por perceber e cuidar das pessoas que estão em situação de vulnerabilidade, por isso todo trabalhador e profissional que lida com prevenção em saúde tem que conhecer a matriz do que é uma sindemia, situação quando fatores cardiometabólicos aceleram doenças em formas graves em pessoas jovens. É o que ocorre com a IC”, destacou Mesquita.


A IC pode ser prevenida ou retardada abordando os fatores de risco – condições médicas, doenças e hábitos de vida que podem resultar no problema. Manter um estilo de vida saudável, por exemplo, fazendo exercícios regularmente e abstendo-se de fumar, reduz significativamente o risco. As diretrizes recomendam que as pessoas com risco de insuficiência cardíaca devem limitar a ingestão de álcool, praticar exercícios por pelo menos 2,5 horas por semana em intensidade moderada e evitar ou interromper o uso de drogas recreativas e o fumo.


Publicada em março, a nova definição universal de IC define a doença como uma síndrome clínica com sintomas e/ou sinais atuais ou anteriores causados ​​por anormalidades cardíacas estruturais e/ou funcionais e corroboradas por pelo menos um dos seguintes: níveis elevados de peptídeo natriurético ou evidência objetiva de congestão pulmonar cardiogênica ou sistêmica.


Com ela, o primeiro estágio da doença passou a ser chamado estágio de risco para IC. É a fase em que indivíduos estão em risco, mas sem sintomas ou sinais atuais e sem quaisquer anormalidades cardíacas estruturais, ou seja, são pacientes com hipertensão arterial, diabetes, doença arterial coronariana, obesidade ou exposição conhecida à toxicidade cardíaca.


O estágio B é o de pré-IC e ocorre em indivíduos sem sintomas ou sinais atuais ou anteriores de IC, mas com evidências de doença cardíaca estrutural ou função cardíaca anormal, ou podem ter um marcador, como níveis elevados de peptídeo natriurético ou troponina cardíaca elevada, especialmente no cenário de exposição a toxinas cardíacas. Os estágios C e D são classificados como IC sintomática e IC avançada.


“Decidiu-se por uma definição universal, porque cada diretriz aplicava um conceito diferente para IC. Essa definição tem quatro passos. O estágio A é aquele indivíduo que é assintomático, mas tem uma condição clínica, seja hipertensão, diabetes, obesidade, doença coronariana, doença de Chagas, alcoolismo, está tratamento para câncer. São pessoas que não têm sinais, mas estão em risco. É fundamental diagnosticar essas comorbidades e conduzir o paciente ao tratamento precoce para reduzir seu risco de desenvolver IC. No estágio B, o indivíduo não terá sinais e sintomas, mas terá alteração estrutural do coração”, ressaltou Lagoeiro.


“As pessoas nascem sem IC. Quem não tem obesidade, hipertensão, não usa drogas cardiotóxicas, obviamente não tem fator de risco para IC. Quem tem, está em risco para IC; aquele que tem mudança no coração ou no peptídeo natriurético, está em fase pré-IC; quando tem sintoma, o paciente vive em média cinco anos. Por isso que precisamos trabalhar fortemente na Atenção Básica para evitar infarto. É o olhar da prevenção”, reiterou Mesquita.


É fundamental a colaboração entre cardiologistas, médicos de família e equipe multidisciplinar, em particular da liderança de enfermeiros e também farmacêuticos, fisioterapeutas, psicólogos, nutricionistas, biomédicos e agentes de saúde, para uma nova jornada para o paciente, que com o apoio das tecnologias digitais e das evidências científicas, auxiliam na construção do cuidado certo, possibilitando uma abordagem integrada e contínua da prevenção, do transplante cardíaco e do cuidado paliativo.


O atendimento ao paciente com IC deve incluir: prescrição, revisão e otimização de medicamentos e dispositivos cardíacos; acesso ao transplante; reabilitação cardíaca; cuidados pós-alta; monitoramento regular de fatores de risco, sinais, sintomas, qualidade de vida, estado funcional e comorbidades; educação sobre autocuidado; apoio psicossocial; planejamento antecipado de cuidados; um plano de cuidados abrangente delineando informações essenciais.


Ecocardiograma e dosagem do peptídeo natriurético (BNP) são exames essenciais para o diagnóstico precoce da IC. No caso do segundo, são inúmeras são as publicações que demonstram o benefício do custo-efetivo desse biomarcador, reduzindo o custo do tempo de internação e custo terapêutico.

“Equipes de Atenção Primária, quando suspeitarem de IC e não tiverem condições de chegar ao diagnóstico, devem encaminhar o paciente para um centro especializado. Foquem nos estágios A e B, nos pacientes em risco de desenvolver a doença. Nós precisamos de uma atuação multidisciplinar para retardar a progressão”, destacou Lagoeiro.


“A nova classificação universal da Insuficiência cardíaca. O que ela traz de importante para a atuação na atenção primária” foi o quinto webinar da série Cuidando do Coração, parceria da SBC com o CONASEMS. Os encontros são mensais, transmitidos pelo canal do YouTube do CONASEMS, com a participação de profissionais especialistas sobre temas estruturados e produzidos pela SBC. Assista na íntegra AQUI.

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