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Especialistas debateram vacinação, cardiopatias e Covid-19

90º webinar da SBC abordou riscos cardiovasculares e a campanha de imunização no Brasil. O novo coronavírus pode afetar qualquer estrutura do coração, causando inflamação e trombose nos vasos e tecidos


A Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) realizou no dia 20 de fevereiro, o seu 90º webinar, cujo tema foi “Vacinação: Doenças Cardiovasculares e Covid-19”, que teve as inestimáveis contribuições de Jorge Kalil Filho, diretor do Laboratório de Imunologia do Instituto do Coração (InCor) do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) e de Otávio Berwanger, diretor da Academic Research Organization (ARO) do Hospital Israelita Albert Einstein. A abertura foi realizada por Marcelo Queiroga, presidente da SBC, e a mediação foi de José Francisco Kerr Saraiva, diretor de promoção da Saúde da entidade.


A pandemia do novo coronavírus foi a principal causa de óbitos no mundo em 2020. Ainda não há um tratamento eficaz para conter a replicação do vírus, por isso as vacinas são essenciais no enfrentamento da Covid-19. Os imunizantes são agentes imunobiológicos que determinam a formação de anticorpos contra o vírus. O organismo, quando vacinado, desenvolve anticorpos que neutralizam o vírus e assim previnem a doença.


Cardiopatias, por si só, já são um sério problema de saúde pública e a associação com a Covid-19 somente agrava esse cenário. Doentes do coração são prioridade na vacinação uma vez que integram um dos subgrupos de maior risco.


O Brasil é referência em campanhas de vacinação em massa para diversas doenças e espera-se que este feito seja repetido agora. É importante que todos se vacinem e mesmo após a imunização não se deve desconsiderar medidas como distanciamento social, uso de máscaras e higiene reforçada.


“A pandemia de Covid-19 é o maior problema de saúde pública do século, que em menos de um ano vitimou centenas de milhares de pessoas no mundo todo. O Brasil foi fortemente afetado. Já avançamos muito e um desses avanços foi a chegada da vacina. Um ativo precioso para a superação dessa crise. Sabemos do esforço que foi feito pela ciência para que em um curto espaço de tempo tivéssemos vacinas capazes de bloquear o vírus, reduzindo o número de casos graves, que é o que leva ao forte impacto no sistema de saúde”, disse o presidente da SBC durante a abertura do evento online.


Kalil falou sobre a situação atual da vacina contra Covid-19 no Brasil. A infecção por coronavírus se dá porque o vírus usa sua proteína S (Spike) para se ligar aos receptores ACE2 - proteína transmembrana expressa na superfície de diversas células do corpo. Uma vez dentro do organismo essas células traduzem o RNA viral para produzir mais vírus. O SARS-CoV-2 não consegue se multiplicar fora das células.


“São duas as formas de nos defendermos do vírus: primeiro fazendo anticorpo neutralizante, que iniba a penetração do vírus na célula; segundo, se o vírus adentrou a célula, nós podemos ter células citotóxicas que reconhecem a célula infectada e a destroem evitando que haja uma proliferação. Quando se faz uma vacina temos que pensar em dois pontos: primeiro em um antígeno, que são alvos contra os quais queremos fazer resposta imune. Temos um adjuvante ou um vetor, que é o que traz esse antígeno para que desencadeie uma resposta imune. Queremos gerar dois tipos de defesa, anticorpos neutralizantes e células T, que são citotóxicas”, explicou o diretor do Laboratório de Imunologia do InCor/HCFMUSP.


Tipos de vacinas


Kalil detalhou os tipos de vacinas que se tem disponíveis hoje. Existem as vacinas de vírus atenuado ou inativado, como as da Sinovac e da Bharat Biotech. O vírus é atenuado após sucessivas passagens em animais ou cultura de células até que sofra mutações que reduzam sua capacidade de causar doença. O vírus se torna não infeccioso ou inativado após tratamento químico, calor ou radiação.


Há vacinas de vetores virais, como as da Universidade de Oxford em parceria com a AstraZeneca, da Janssen e a Sputnik V. Elas utilizam o vírus geneticamente modificado para que este vetor viral possa produzir proteínas do novo coronavírus no indivíduo vacinado.


Existem as vacinas de ácidos nucleicos, que fazem uso de instruções genéticas (DNA ou RNA) e ao serem administradas produzem proteínas do novo coronavírus. São as produzidas pela Moderna, Pfizer, Imperial College London, UreVac e Walvax.


Por fim, há os imunizantes baseados em proteínas ou VLP, que são partículas semelhantes ao vírus, como as desenvolvidas pela Novavax/GSK, Medicago, Vaxine e ZFSW.


“As grandes potências, como o Canadá, compraram, seis vezes o número de vacinas que sua população precisa. Isso lá atrás quando era possível. Países mais pobres não compraram vacinas suficientes e certamente vão sofrer. Por isso a necessidade desse trabalho que fazemos na Covax Facility, um consórcio para acesso global de imunizantes contra a Covid-19, impulsionando o desenvolvimento e distribuição dessas vacinas. A iniciativa é liderada pela Organização Mundial de Saúde (OMS)”, destacou Kalil.


Risco cardiovascular


A infecção por Sars-CoV-2 é conhecida por causar problemas respiratórios, como a insuficiência pulmonar, entretanto pesquisas mostram como os efeitos da Covid-19 podem ser graves no coração.


As complicações cardiovasculares precisam ser vistas com atenção. O novo coronavírus pode afetar qualquer estrutura do coração, causando inflamação e trombose nos vasos e tecidos. A miocardite, por exemplo, é uma inflamação do músculo cardíaco que não é considerada grave, mas que em alguns casos pode levar à insuficiência cardíaca.


“Justamente os pacientes com doença cardiovascular estabelecida ou com fatores de risco cardiovascular, como diabetes e hipertensão, são os que têm maiores riscos de eventos clínicos relevantes, sejam óbito ou necessidade de ventilação mecânica. Algumas situações são relativamente estabelecidas nesse um ano de pandemia. A Covid-19 na forma crítica, aquela que queremos evitar, ocorre em 5% dos casos e a doença severa, principalmente cujo paciente tem comprometimento respiratório, pode acontecer em 15% e é mais comum em pacientes com comorbidades, a exemplos dos cardiopatas”, explicou Berwanger.


Os primeiros estudos observacionais já indicavam que os casos mais graves ou que necessitam de suporte crítico ocorrem a partir do 12º dia de doença. Hoje se pensa a Covid-19 em três estágios: uma fase inicial, mais viral, como sintomas mais leves e encabeçados por febre e tosse; uma segunda fase, entre o estágio viral e o inflamatório, onde se começa a indicar o risco de insuficiência respiratória; e, obviamente, a fase altamente inflamatória, com risco de complicações mais críticas, como Síndrome do Desconforto Respiratório Agudo (SARA) e um risco maior de injúria miocárdica aguda e aumento de troponina IOP.


“A partir da segunda semana de infecção o grupo de maior mortalidade é o de cardiopatas. A mortalidade geral tem variado entre 1,7% e 2%, mas quando vamos no paciente com doença cardiovascular estabelecida, paciente coronariopata ou com insuficiência cardíaca prévia, essa mortalidade é cinco vezes maior, vai para 10,5%. A forma da manifestação cardiovascular da Covid-19 pode se dar por agravamento de uma doença preexistente, assim como o vírus pode causar injúria miocárdica aguda e arritmia ventricular”, afirmou Berwanger.


Assista na íntegra o webinar “Vacinação: Doenças Cardiovasculares e Covid-19”.

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