Análise de perfil lipídico de pacientes com anemia falciforme pode apontar severidade do prognóstico

Hipótese constatada é o resultado mais importante de um recente estudo publicado no International Journal of Cardiovascular Sciences (IJCS)


Um dos mecanismos que envolve a anemia falciforme está relacionado às alterações no perfil lipídico de pacientes. O ponto, ainda pouco explorado no meio acadêmico, foi tema de uma recente revisão sistemática publicada no IJCS, periódico internacional da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC).

A pesquisa Association Between Lipid Profile and Clinical Manifestations in Sickle Cell Anemia: A Systematic Review identificou que a razão triglicérides/HDL traz importantes marcadores da comorbidade clínica nesses pacientes. Mas essas não foram as únicas variáveis analisadas.


“No processo, identificamos cerca de 144 artigos sobre a fisiopatologia, o que é uma amostra ainda pequena para uma doença com taxas ainda altas de mortalidade e morbidade”, diz Marina Dantas, pesquisadora na Área de Saúde da Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública.


A seleção final considerou 15 estudos, o que resultou em uma amostra de 2.230 indivíduos. As principais variáveis analisadas foram: HDL-C, LDL-C, colesterol total e triglicerídeos.


O colesterol total reduzido foi encontrado em três principais grupos de pacientes: aqueles com suspeita de hipertensão pulmonar; os com úlceras de membros inferiores e os que tinham um histórico de priapismo.


O HDL reduzido esteve associado a anormalidades cardíacas como hipertrofia ventricular, arritmias e também hipertensão pulmonar, além de pneumonia e priapismo. Além disso, observou-se que pacientes com uma maior necessidade de transfusão sanguínea também possuíam níveis reduzidos de HDL.


O triglicérides aumentados esteve relacionado a crises vaso-oclusivas e síndromes torácicas agudas. Além disso, o marcador também foi identificado em grupos com anormalidades no eletrocardiograma, como bloqueio atrioventricular (BAV) de primeiro grau.


Foi ainda identificada hipertensão relativa relacionada ao nível alto de triglicérides nesses pacientes, o que consequentemente é um fator que pode contribuir para o aumento da mortalidade no grupo.


Outro ponto de alta relevância constatado no estudo foi a razão entre triglicérides e HDL. Tal associação foi relacionada ao aumento na velocidade do fluxo sanguíneo cerebral nas artérias, um preditor de risco de AVC.


“O maior resultado do trabalho foi a constatação de que os parâmetros lipídicos são potenciais biomarcadores da severidade da doença”, afirma Marina.


A doença ainda carece de opções efetivas de tratamento e controle das suas complicações. O presente estudo direciona para recomendações mais atualizadas e deixa a porta aberta para outras investigações, ainda mais específicas.


“Já existem algumas evidências de que esses pacientes teriam ácidos graxos pró-inflamatórios aumentados e, por outro lado, ácidos anti-inflamatórios reduzidos”, diz Marina. Tal levantamento evidencia que pode existir um mecanismo fisiopatológico envolvido com os níveis de ácidos graxos.


Essa é uma outra temática que ajudaria a colher ainda mais benefícios sobre o futuro manejo da doença e contribuir para o seu diagnóstico e prognóstico.


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