A trajetória de João Souza Filho e sua importância para a cardiologia no estado da Bahia
A trajetória de João Souza Filho e sua importância para a cardiologia no estado da Bahia

10/04/2023, 14:33 • Atualizado em 21/12/2023, 17:30

O cardiologista formado na década de 1960 ajudou a implementar a produção científica na seção regional baiana da Sociedade Brasileira de Cardiologia

A Sociedade Brasileira de Cardiologia - Seção Bahia, foi fundada no Ambulatório de Cardiologia do Hospital Santa Isabel, em Salvador, em 1947. Ainda chamada de Sociedade de Cardiologia do Estado da Bahia (SOCEBA), o início da instituição simbolizou o começo de uma organização profissional e científica da especialização no estado nordestino.

Somente quatro anos separam a fundação SBC a nível nacional da SOCEBA. A seção baiana é uma das mais antigas da instituição e com um dos mais importantes legados. Personalidade essencial para a SOCEBA é o doutor João Souza Filho, a quem o interesse pela cardiologia despertou inesperadamente.

“Me formei em 1965 e não tinha interesse pela especialidade. No entanto, em 1966, no segundo trimestre da minha residência, passei a ter contato com Armênio Guimarães, professor adjunto na época, que despertou meu interesse na cardiologia”, conta João.

Um ponto interessante e marcante durante toda a história do cardiologista é a valorização do ensino em seu estado, Bahia, e no país, de maneira geral. Toda a sua formação, desde a graduação até especializações, foram realizadas em solo nacional.

Professor aposentado pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), instituição onde iniciou seus estudos na Medicina, ex-chefe de Cardiologia no Hospital São Rafael, em Salvador, e ex-presidente da SOCEBA, João carrega muita história junto a cada um dos seus títulos.

É um dos responsáveis pelo surgimento da atividade científica na Sociedade Baiana de Cardiologia, como era conhecida a instituição até 1999, quando virou Sociedade Brasileira de Cardiologia - Seção Bahia.

“Até o início dos anos 80 a SOCEBA foi presidida pelo doutor Adriano Pondé. No entanto, a atividade científica era muito reduzida. Um grupo de cardiologistas se reuniu e resolveu dar uma nova dimensão à cardiologia”. João foi eleito presidente da sociedade e a presidiu por dois mandatos, até 1989.

“O primeiro Congresso de Cardiologia da SOCEBA foi presidido por mim no ano de 1987. O segundo encontro foi feito dois anos depois e eu abri mão de presidir esse para homenagear o professor Adriano Pondé. Escolhemos a doutora Angelina Pelozzi, sua assistente, para presidir essa edição”, compartilha João.

“A vinda do grupo do Dr. Nilzo Ribeiro, cirurgião cardiovascular, para Salvador em 1974, deu um novo foco à cardiologia, que cresceu muito com essa presença”, compartilha João, que também em muito contribuiu para o cenário.

A partir do trabalho científico iniciado por João no começo dos anos 80, em colaboração com outros colegas, a cardiologia cresceu em toda Bahia. Eventos profissionais e científicos passaram a ser realizados não somente na capital, mas também no interior do estado.

O penúltimo Congresso de Cardiologia do Estado da Bahia marcou a 34ª edição do evento e aconteceu em junho de 2022. João foi um dos homenageados pelos anos de trabalho no estado.

Ele também é responsável pela criação do programa de residência do Hospital São Rafael, possibilitando o aprendizado prático de milhares de alunos de Medicina.

Hoje, aposentado dos cargos, o cardiologista segue trabalhando em seu consultório três vezes por semana. “Estou fazendo 82 anos e sigo trabalhando, em um ritmo mais reduzido, mas tocando a vida como acho que deve ser tocada, independente da faixa etária”, ressalta João.

Ele acredita que a cardiologia exercida no Brasil não perde para outros países: “'Não só na clínica como também na cirurgia cardíaca e na hemodinâmica. Nosso padrão científico é igual ao dos melhores centros do mundo de cardiologia”.

Entretanto, destaca um cenário de negligência que identifica em alguns profissionais nos dias de hoje: “Eu acredito que o paciente deve ser ouvido, examinado, e, a partir disso, os exames devem ser pedidos. O médico não deve se basear em tratar o paciente a partir de exames complementares pura e isoladamente”.

O conselho que o médico cardiologista de longa data deixa para jovens profissionais é a de atenção: “Que tenham um pouco mais de paciência com seus pacientes. Todo paciente que procura um médico é carente de alguma informação que o tranquilize. Não tem informação que o tranquilize mais do que uma conversa demorada, atenciosa”.