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A saúde plena do homem passa pelo coração saudável

A conscientização pelo cuidado com a saúde masculina também está no controle dos fatores de risco para as doenças cardiovasculares

(Foto: Homem Vitruviano de Leonardo da Vinci, GQ Globo)


Neste mês, a Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) vem ressaltar a importância do cuidado com a saúde do homem. Indiscutivelmente a prevenção contra o câncer de próstata faz-se necessária e esforços neste sentido, como a ampla divulgação da medicina baseada em evidências, que aponta cada vez mais para a necessidade dos exames preventivos e o acompanhamento médico periódico, assim como as campanhas frente à população, organizadas pelas sociedades médicas, têm contribuído para a maior conscientização da relevância do cuidado da saúde masculina.


Entretanto, dentro do contexto de saúde plena, é urgente que façamos uma alusão à saúde cardiovascular (CV) do homem. Publicado recentemente, no Lancet Diabetes Endócrino, em novembro de 2020, o artigo “ A saúde metabólica no Brasil: tendências e desafios ”, mostra que 36,1% dos homens têm estilo de vida sedentário, isto é praticam menos de 150 minutos/semana de atividade física, de moderada intensidade; ou menos de 75 minutos/semana de atividade física, de alta intensidade; somente 27,9% consomem regularmente ( >= 5 dias/semana) frutas e vegetais e 21,8% consomem alimentos ultraprocessados regularmente. Entre os anos de 2009 e 2019 houve um aumento na prevalência de obesidade (IMC >= 30 kg/m²) na população brasileira de 13,9% para 19,8%, sendo da ordem de 20,9% entre a população de 45-64 anos e de 8,7% nas pessoas com idade entre 18 e 24 anos.


Estes dados corroboram para que a SBC traga um alerta sobre a importância do controle dos fatores de risco para as doenças cardiovasculares (DCV), como a obesidade, o diabetes, o sedentarismo, o tabagismo, a dislipidemia, a hipertensão arterial e o estresse. Nesta direção, a SBC, junto à comunidade como um todo, tem elaborado programas de prevenção das DCV e promoção da saúde, de forma intersetorial e interprofissional com o intuito de conscientizar e sensibilizar a população a adotarem um estilo de vida saudável, com a prática da atividade física regular, alimentação saudável e manter o acompanhamento médico periódico, mesmo em tempos de pandemia.


Adicionado a esses dois fatores protetores para a saúde, o Departamento de Espiritualidade em Medicina Cardiovascular da SBC contempla a importância da espiritualidade na vida. Cultivar sentimentos positivos como gratidão, perdão, altruísmo, solidariedade, empatia tem se mostrado como fatores protetores para a saúde cardiovascular.


Vale esclarecer que espiritualidade não é sinônimo de religião ou religiosidade. Neste ano, a pandemia de Covid-19 nos impôs alterações de comportamento, com uma carga maior de estresse para a maioria da população, e a ciência nos demonstra que fatores estressores da vida estão ligados à hiperativação dos eixos simpático-adrenal e hipotálamo-hipófise- adrenocortical, que podem promover e acelerar uma doença cardíaca por várias vias. O coração submetido à ação adrenérgica intensa, deflagra aumento intermitente da frequência cardíaca e da pressão arterial, sobrecarregando o sistema CV. A atividade inflamatória sistêmica facilitada pela hiperatividade adrenérgica se traduz com o aumento da produção de citocinas inflamatórias. A atividade inflamatória exacerbada ativa a cascata da coagulação, intensifica a agregação plaquetária, promove a ruptura de placas de ateroma e leva à formação de trombos intravasculares.


O atual aumento dos eventos cardiovasculares, como infarto agudo do miocárdio e acidente vascular encefálico, tem gerado preocupação aos cardiologistas. Orientar a população que busquem atendimento médico quando da presença de sinais ou sintomas cardiovasculares torna-se mandatório para salvarmos vidas. Devemos incentivar os portadores de doenças crônicas, como hipertensão arterial, diabetes, coronariopatia, que mantenham seus tratamentos e sigam as normas preventivas contra o novo coronavírus. Não podemos minimizar o grave impacto negativo que as doenças CV causam à saúde do homem, seja no aspecto individual ou populacional. Por isso, vamos estimular os homens e toda a população a mudar a forma de pensar sobre a sua saúde, cuidando-se e prevenindo-se, para que não façam parte das estatísticas das doenças cardíacas.


Carla J B Lantieri, médica assistente da disciplina de Cardiologia da Faculdade de Medicina do ABC, médica do Hospital do Coração - Sanatório Sírio/SP, coordenadora do Programa SBC vai à Escola da Sociedade Brasileira de Cardiologia, membro da Diretoria de Promoção de Saúde da SBC e do Departamento de Aterosclerose da SBC.


O conteúdo também pode ser acessado pelo link (artigo disponível na página 24)

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