76º Congresso Brasileiro de Cardiologia somou 95 horas de conteúdo e reuniu 15 mil inscritos

Atualizado: 1 de dez. de 2021

Nesta edição, destaque para os temas livres, que permitiram discutir a pesquisa no Brasil, para as sessões sobre Covid-19, espiritualidade e tecnologia e também para a grande interação entre os participantes


Mais de 95 horas de conteúdo valioso para a medicina cardiológica no Brasil fizeram parte do 76º Congresso Brasileiro de Cardiologia (CBC), realizado pela Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) nos dias 19 a 21 de novembro de 2021. Pelo segundo ano consecutivo, o evento foi totalmente virtual e gratuito, reunindo 15.000 inscritos.


Os números provam o sucesso da edição: foram realizadas 110 atividades ao vivo e 212 on demand, incluindo as mesas. As sessões conjuntas com outras sociedades/instituições somaram 13. O número de palestrantes chegou a 500, sendo quase 40 internacionais. Mais de 900 temas livres foram submetidos, sendo que 781 foram aprovados. O acesso à plataforma de temas livres nos três dias de evento passou a marca de 25 mil. No sábado, o ingresso nas aulas chegou a 10 mil.


Mesmo em tempos de pandemia, o CBC mostrou a força da cardiologia brasileira, a capacidade e a responsabilidade da SBC em encontrar soluções adequadas para manter o contato dos cardiologistas com o conhecimento técnico, promovendo a troca de informações e experiências com a comunidade médica.


Dr. Fernando Bacal, Dra. Alexandra Mesquita e Dr. Celso Amodeo

A cerimônia de abertura do evento contou com a participação do presidente da SBC, Celso Amodeo, do diretor científico da entidade, Fernando Bacal, da presidente desta edição do congresso, Alexandra Mesquita, e do ministro da Saúde – e presidente licenciado da SBC –, Marcelo Queiroga.

Amodeo destacou o trabalho intenso da Sociedade no planejamento estratégico do evento, e já reforçou o convite para a edição 2022, que acontecerá em formato híbrido (presencial e digital), junto ao Congresso Mundial de Cardiologia, organizado pela World Heart Federation, na cidade do Rio de Janeiro.

Queiroga exaltou a tradição do evento e elencou as ações do Ministério que visam à redução da mortalidade por doenças cardiovasculares no Brasil. “Continuaremos trabalhando para conter a pandemia da Covid-19, voltando nossas atenções, também, para as doenças crônicas não transmissíveis, como as cardiovasculares”, frisou.

Por sua vez, Bacal ressaltou o conteúdo do evento. “Todo esse congresso foi preparado para que os cardiologistas aproveitem.” Para Alexandra, a história do CBC se confunde com a história da própria Sociedade: “E ele vem crescendo e se modernizando a cada ano”, comemorou.

Assim como no ano passado, o congresso manteve a valorização do espaço para os principais temas livres e, logo no primeiro dia, apresentou as categorias Pesquisador, Jovem Pesquisador e Iniciação Científica. As sessões foram precedidas pelos comentários da coordenadora de Acompanhamento da Gestão e Controle Interno da SBC, Gláucia Maria Moraes de Oliveira, e pelo professor adjunto de Medicina Interna da UERJ, Sérgio Emanuel Kaiser.

Segundo Kaiser, iniciar o congresso com uma sessão de apresentação de trabalhos científicos teve como objetivo valorizar a produção acadêmica no Brasil. “De fato, os trabalhos foram de alto padrão e isso nos orgulha bastante. Um aspecto que nos chama a atenção é a evolução da tecnologia digital: nos últimos dois anos, é perceptível seu aperfeiçoamento constante. Cada vez mais, os detalhes são trabalhados de uma forma muito profissional”, expôs.

Para Gláucia, as sessões de temas livres permitiram discutir a ciência feita no Brasil, o que é fundamental no atual momento do país. Ela também comenta que o congresso deste ano deixou o desenho tradicional do passado, atraindo um grande público e muito mais discussões sobre os temas, com diversas interações no chat durante as apresentações. “Além disso, poder ver ou rever, por algum tempo, as palestras que ficaram gravadas é algo muito interessante, como uma forma de prolongar o congresso.”

Gláucia comenta, ainda, sobre a palestra “Felicidade Baseada em Evidência”, do SBC Talks, que discutiu uma questão muito importante no Brasil relacionada à felicidade em tempos difíceis. “Além dos problemas que o cardiologista e outros profissionais enfrentam, também foi abordado o aspecto psicológico e espiritual, não no sentido de religiosidade, mas envolvendo a resiliência e o psicotrauma. O congresso permitiu ampliar as perspectivas.”

Outro ponto salientado por Gláucia é que no final de cada dia de congresso, jovens pesquisadores discutiam e sumarizavam o evento. Ela também destaca a newsletter preparada pela equipe de jornalistas da assessoria de imprensa da SBC, com os pontos marcantes de cada dia. “Essas ações deveriam ser mantidas e ampliadas nas próximas edições.” Ela cita, ainda, o fato de o evento ter sido discutido simultaneamente nas redes sociais, colocando a SBC na vanguarda dos congressos mundiais.

Diversidade

Atividades especiais promovidas pelos departamentos especializados da SBC e simpósios internacionais ocorreram em todos os dias do evento. O ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, participou de uma palestra, com Socorro Galiano, representante da OPAS – Organização Pan-Americana da Saúde. Eles falaram sobre o enfrentamento às doenças cardiovasculares ser uma prioridade absoluta do governo federal e que essas ações devem começar na Atenção Primária. Também exaltaram a programação e a organização do congresso, que é o maior evento da especialidade na América Latina.

Um dos destaques da programação foi a sessão especial da SBC e da European Society of Cardiology sobre publicações científicas, que tratou do reconhecimento e do impacto dos Arquivos Brasileiros de Cardiologia (ABC Cardiol), do International Journal of Cardiovascular Sciences (IJCS), do ABC Imagem Cardiovascular, do European Heart Journal e do European Heart Journal – Cardiovascular Imaging.

A palestra ressaltou quais são os requisitos absolutos para ter um manuscrito aprovado; quais são os prós e contras de uma família de revistas científicas e como elas devem interagir; e como alcançar a colaboração interdisciplinar em cursos e revistas de subespecialidades, entre outros.

A tecnologia também foi assunto recorrente. A conferência “Telemedicina e saúde digital em cardiologia”, por exemplo, foi uma oportunidade de conversar sobre como a tecnologia e a inteligência artificial podem melhorar, inclusive, a prática cardiológica. “Estamos à beira de uma grande revolução, que nos permite observar a evolução na análise de dados para monitorar e aconselhar nossos pacientes”, disse Antônio Luiz Pinho Ribeiro.

Outro tema evidenciado em várias palestras foi a Covid-19. Uma delas apresentou os principais resultados dos estudos randomizados nacionais sobre a doença, destacando o Coalizão Brasil e suas fases I, II, III e IV; o Brace Corona e o Stop-Covid. O Coalizão conta com a participação de oito instituições e conduziu estudos sobre terapias para o uso de pacientes da Covid-19 – hidroxicloroquina, dexametasona, azitromicina e tocilizumab.

O Brace Corona teve 659 pacientes randomizados e concluiu que, entre os pacientes internados com Covid-19 leve a moderada e que tomavam ACEIs ou ARBs antes da internação hospitalar, não houve diferença significativa no número médio de dias vivos e fora do hospital para aqueles designados para descontinuar esses medicamentos.

O Stop-Covid foi realizado com o Tofacitinib, um medicamento para artrite reumatoide, que apontou que essa medicação, capaz de modular o sistema imunológico, conseguiu reduzir em 37% o risco de morte ou falência respiratória em pacientes com quadro moderado internados com pneumonia associada à Covid-19. A sessão teve participação de Luciano César de Azevedo; Olga Ferreira de Souza; Viviane Cordeiro Veiga e Patrícia Guimarães. A moderação foi de Alexandre Biasi Cavalcanti.

Vale a pena ressaltar, ainda, a discussão sobre espiritualidade e medicina cardiovascular, especialmente no âmbito da hipertensão. “Trata-se de um tema extremamente importante que traz um conceito de resiliência, de relações afetivas, de relações humanas e na crença em algo que é maior”, salientou o moderador Paulo César Brandão Veiga Jardim, ao enfatizar que o intuito não é falar de religiosidade e sim de espiritualidade. “É um tema que vem crescendo, um movimento de recuperação da medicina humana.”

Encerrando as sessões científicas do 76º Congresso Brasileiro de Cardiologia, Alexandra Oliveira de Mesquita, Fernando Bacal, Leandro Ioschpe Zimerman, Roberto Rocha, Raul Dias dos Santos Filho, Andréa Araújo Brandão e Gláucia Maria Moraes de Oliveira apresentaram os principais pontos da cardiologia abordados mundialmente nos congressos de 2021 em insuficiência cardíaca, arritmias cardíacas, doença arterial coronariana, prevenção cardiovascular, dislipidemia e hipertensão arterial.

Para Carlos Eduardo Rochitte, presidente do Departamento de Imagem Cardiovascular (DIC) da SBC, o congresso foi muito interativo e abordou grandes temas. “Na área da imagem, muitas novidades foram apresentadas, como novos dados prognósticos de isquemia, de angiotomografia coronariana e de FFR (Reserva de Fluxo Fracionada). Muitos dados científicos novos foram apresentados no congresso.”

Ele destaca a participação dos âncoras, uma experiência nova que foi um sucesso. “Foi uma cola que acabou dando uma liga para o congresso entre as várias sessões e entre as várias salas”, expõe.


Sobre os âncoras também comenta o presidente da SBC, Celso Amodeo. “Entre uma sessão e outra, tivemos dois profissionais que faziam comentários sobre o que aconteceu e sobre o que ia acontecer, chamando a atenção dos associados para temas importantes que seriam abordados e para a visitação dos estandes.”

Amodeo também salientou o modelo mesclado de apresentações orais e on demand. “Nas orais, que chamamos de online, apresentamos os palestrantes, que estavam todos presentes, mas sua aula foi transmitida gravada. Dessa forma, conseguimos manter o tempo certo. No final, abrimos a discussão.”

Para o presidente da SBC, seu depoimento é o testemunho de todos os sócios: “o Congresso foi perfeito, só recebemos elogios”.

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