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Estatina e Risco de IC após Quimioterapia com Antraciclina ou Trastuzumabe para CA de mama precoce

  • Rodolfo Dourado - Cardiologista do Hospital da Bahia

Fundamentação: O tratamento precoce do câncer (CA) de mama requer frequentemente o uso de quimioterápicos como antraciclina e/ou trastuzumabe, drogas já sabidamente com significativo potencial cardiotóxico e aumento de risco de insuficiência cardíaca (IC). Os ensaios clínicos com agentes cardioprotetores mostraram resultados modestos e conflitantes. O uso de IECA/BRAs e betabloqueadores é limitado pelo seus efeitos adversos hemodinâmicos, além do aumento de risco de comprometimento renal e hipercalcemia dos BRAs. Há exceção para o deszaroxane, cujo uso está aprovado apenas para mulheres com doença metastática recebendo doxorrubicina em doses maiores que as tipicamente utilizadas em CA de mama. As estatinas surgiram promissoramente neste cenário, como candidata a atenuar a cardiotoxicidade das antraciclinas e trastuzumabe, ainda baseado em estudos pequenos e unicêntricos


Metodologia: Estudo de coorte retrospectiva baseado em um escore de propensão para avaliar a associação entre exposição a estatina e o risco de IC entre mulheres idosas com câncer de mama que receberam antraciclina ou trastuzumabe.


Utilizando o bancos de dados de pessoas residentes em Ontario, Canada, foram identificadas todas as mulheres que receberam antraciclina e/ou trastuzumabe dentro de 1 ano após o diagnóstico de CA de mama, com idade ≥ 66 anos. Exclui-se paciente com IC ou CA prévios e aquelas cujos dados da quimioterapia não estavam detalhados. Foram criadas 3 coortes: expostas a antraciclina e trastuzumabe e a estatina ou não


Resultados: Foram selecionadas 2545 mulheres tratadas com antraciclina (859 expostas a estatina) e 1371 tratadas com trastuzumabe (520 expostas a estatina). Como esperado, mulheres expostas a estatina tinham maior prevalência de doença cardiovascular preexistente e fatores de risco associados. Também tinham maior prescrição de anti-hipertensivos antes da quimioterapia. Também, em acordo com a maior idade e risco cardiovascular, as pacientes em uso de estatina na coorte do Trastuzumabe tiveram menor uso prévio de antraciclinas.


Na coorte dos antracíclicos houve 43 hospitalizações por IC ao longo do seguimento médio de 5,1 anos. Ao longos dos 5 anos a incidência cumulativa foi de 1,2% no grupo exposto a estatina e 2,9% no não exposto. O HR causa-específico foi 0,45 (95% CI 0,24-0,85; p = 0,01).


Na coorte da trastuzumabe foram 27 hospitalizações em um tempo médio de 4,4 anos. A inicidência cumulativa em 5 anos foi 2,7% no grupo exposto a estatina e 3,7% no não exposto. O HR causa específico dos 0,46 (95% CI 0,20-1,07%; p 0,07).


Conclusão: A exposição a estatina foi associada com menor risco de hospitalização por IC após quimioterapia com antracíclicos em pacientes com mais de 66 anos e câncer de mama. Houve uma tendência a menor risco, sem significância estatística, em paciente com QT com Trastuzumabe e uso prévio de estatina. Esses achados não foram decorrentes do efeito hipolipemiante e redução de IAM das estatinas. Os dados deste estudo provêem embasamento para futuros ensaios clínicos.


Impacto Clínico: Os dados do presente estudo corroboram dados prévios de menor risco de cardiotoxicidade nos pacientes exposto a antraciclicos e em uso de estatina. Entretanto, não apresenta significância estatística para mostrar redução de risco no grupo exposto a Trastuzumabe. Há poucos dados sobre a associação de estatina e cardioproteção em QT com Trastuzumabe. Um estudo unicêntrico avaliou 129 pacientes com CA de mama tratado com Trastuzumabe e exposição a estatina, com redução de 68% no risco. O conflito dos dados nos dois estudos sugerem necessidade de avaliações adicionais e com maior robustez cientifica.


O atual estudo tem a limitação de ser uma análise retrospectiva e dependente de bancos de dados administrativos. Não havia também registros de fração de ejeção de ventriculo esquerdo, função diastólica, biomarcadores cardiacos e outros exames laboratoriais. O estudo excluiu pacientes com IC previa mas pode ter incluído pacientes com cardiomiopatia assintomatica. Houve ampla perda de dados de mensuração de LDL-c, com necessidade fazer imputação múltipla. Apesar de não poder afirmar que os resultados observados possam decorrer de confundimento residual, o estudo traz mais dados para o promissor uso das estatinas em cardioproteção. Lançando mais bases a serem ou não ratificadas em estudos futuros.

Referência Bibliográfica:

  1. Abdel-Qadir H, Bobrowski D, Zhou L, et al. Statin Exposure and Risk of Heart Failure After Anthracycline- or Trastuzumab-Based Chemotherapy for Early Breast Cancer: A Propensity Score‒Matched Cohort Study. J Am Heart Assoc. 2021;e018393. doi:10.1161/JAHA.119.018393

#INSUFICIENCIA_CARDIACA

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