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A tortuosidade das artérias coronárias (TCor) como possível indicador de isquemia miocárdica

Pesquisa realizada observa a tortuosidade de diferentes artérias no movimento de sístole e diástole para investigar a presença de isquemia


Um possível mecanismo relacionado à isquemia na doença não obstrutiva é a tortuosidade das artérias coronárias (TCor). Uma recente pesquisa divulgada na última edição do ABC Cardiol, periódico nacional da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), buscou investigar tais fatores.


O objetivo primário do estudo Tortuosidade das Artérias Coronárias como um Novo Fenótipo para Isquemia sem Doença Arterial Coronariana, foi avaliar a correlação entre a tortuosidade das artérias coronarianas em pacientes sem obstrução coronariana. O secundário foi verificar as características geométricas de cada vaso coronário que poderiam estar correlacionadas com isquemia.


A pesquisa partiu de uma observação clínica do autor que frequentemente atendia um mesmo perfil de pacientes: pessoas com queixa de dor, teste funcional de isquemia positivo, porém sem obstrução coronariana como apontava a coronariografia.


O tema ainda não é muito explorado na literatura, mas uma das suas poucas descrições chamou a atenção de André Estrada, que faz parte do corpo médico do Hospital Federal dos Servidores do Estado e Hospital Universitário Antônio Pedro. O pesquisador se deparou com uma frase a respeito da tortuosidade em determinado estudo e resolveu correlacionar o conceito com a condição de isquemia miocárdica.


“Tive a ideia de começar a pesquisar sobre o tema, o que levou a minha tese de mestrado na Universidade Federal Fluminense (UFF)”, diz André.


Durante a pesquisa bibliográfica, ele encontrou diferentes significados para o conceito da tortuosidade: “não é padronizado ou bem estabelecido, eu me baseei na descrição de um dos artigos mais citados”, explica.


Tal definição considera a TCor como a presença de pelo menos três curvaturas consecutivas, com um ângulo de curvatura inferior a 90 graus e de uma artéria coronária epicárdica maior que dois milímetros durante a diástole.


O grupo analisado contou com 57 pessoas, entre 40 mulheres e 17 homens. A angiografia coronária invasiva (ACI) foi utilizada para descartar a presença de obstruções coronárias e pontes miocárdicas, assim como avaliar a presença e o grau de TCor.


A análise angiográfica foi feita em três artérias: descendente anterior esquerda (ADAE), circunflexa (ACX), e coronária direita (ACD).


“Procuramos comparar a presença da tortuosidade especificamente nessas artérias com a presença da isquemia nos territórios que recebem o sangue através delas”, explica André.


De forma inovadora, diferente de outros estudos realizados sobre o assunto, a investigação também foi feita durante a sístole, não somente na diástole.


A correlação mais presente se mostrou na ACX, tida como a artéria mais tortuosa pela literatura existente. Na ACD, também foi identificada uma correlação, apesar de não tão forte quanto na primeira. Já na ADAE, a relação não foi encontrada.


“A suspeita é de que outros mecanismos compensatórios podem estar envolvidos na relação da artéria descendente anterior esquerda, que possui uma massa miocárdica maior que a outras”, diz André.


De forma prática, entender que a tortuosidade pode ser uma explicação para a isquemia aponta para a importância de valorização do sintoma do paciente. Não ter um exame como um falso positivo, que tem isquemia, tem a tortuosidade, mas isso não é levado em consideração.


Os resultados ajudam ainda a compreender melhor a circulação coronariana, microcirculação e disfunção microvascular, apontando para outras causas da isquemia miocárdica além da obstrução mecânica.


Um possível aprofundamento do estudo, como André indica, seria a busca por um índice de tortuosidade.


“Podemos ainda compreender quais fatores da artéria podem estar influenciando na presença da isquemia, quantos ângulos de tortuosidade, qual o menor ângulo. Traduzir isso para números seria o próximo passo”.


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